quarta-feira, setembro 06, 2006

Buscando a Congruência

Como resolver a incoerência entre o que é dito e o que é feito entre os homens? A questão entra na raiz da constituição da própria espécie humana e pode ser posta de outra forma: como estreitar a distância entre o sonho e o objecto realizado que é depois exposto ao mundo? Este é um passo que envolve a transformação de algo densamente subjectivo, o sonho, em algo que habitará no espaço real de forma mais presentemente objectiva. O problema do subjectivo e do objectivo é responsável por inúmeras páginas discursivas na área da Filosofia. Deveras que a carne corrompe o acto, como foi verificado por Chico Buarque e São Paulo, o primeiro, poeta múltiplo da vida quotidiana e, o segundo, homem sábio da devoção religiosa. Os sonhos são coisas idealizadas que mesmo para existirem em seu espaço abstracto, precisam do suporte da carne e isso denota uma natureza inseparável para ambos. Acreditamos que um ponto-chave que possivelmente enfraquecerá a solidez do sonho em processo progressivo de evanescência, até o seu nascimento em coisa deturpada, foi sugerido por David Bohm e F. D. Peat no livro Ciência, Ordem e Criatividade.
Essa caixa de surpresas e complexidade que é o ser humano, sujeito às suas características constituintes, está condenada à eterna luta contra si própria. Uma delas é amolecer a rigidez da infra-estrutura tácita das ideias que a envolve. E esta afecta cada indivíduo por vias internas e externas. A infra-estrutura procede da própria mente humana ao adquirir habilidades, ideias, processos de pensamento e torná-los inerentemente implícitos aquando da execução de alguma tarefa, seja de ordem prática ou teórica. Portanto, a infra-estrutura tácita é uma característica da carne. Na execução de tais tarefas, um cientista, por exemplo, procede embebido no seu método sem indagar os pormenores do que está a executar. Como a Ciência está em constante evolução, historicamente, mudanças podem ocorrer em seus conceitos fundamentais. A gravidade do trabalho científico, em paralelo com a infra-estrutura tácita está na aplicação dos conceitos antigos em problemas imersos em contextos novos, o que pode causar confusão e fragmentação. E esse efeito de amarras nos homens está presente em todos os seus actos seja na Arte, na Ciência, na Religião ou, especificamente, na Política.
Um caminho de libertação que seja, não é definitivo. Contudo é o resultado de uma constante luta contra si mesmo, em simultânea associação com a sociedade que deve mudar em conjunto. Se houver a incompatibilidade entre a mudança de um sujeito e a comunitária, aquele indivíduo que mudou sozinho virará um deus e será eliminado pela incompreensão do mundo com relação às suas ideias.
A constante luta de que falamos é iniciada pelo diálogo. Diálogo consigo próprio isoladamente e em conjunto com o livre diálogo de ideias e pontos de vista distintos, postos lado a lado num ambiente comunitário. Esta é uma assertiva baseada em fundamentos mais profundos de análise científica. Diálogo vem do grego e significa dia = através de e logos = palavra. E a palavra que está referida nesta significação não é a mera propagação sonora, mas sim a raiz dos seus significados. O termo é mais profundo. Segundo Séneca, o discurso é o rosto do espírito Assim, diálogo é o fluxo livre de significado entre as pessoas através da comunicação. Mas reforcemos que esta comunicação deve começar dentro de si próprio. Através do diálogo constante consigo próprio, vários génios de todas as áreas conseguiram romper a barreira da infra-estrutura tácita das ideias e expor para a humanidade novas ideias, conceitos e valores. E isto não lhes foi fácil, rendendo-lhes volumes de horas reflexivas e necessitando de um esforço e desprendimento pessoal de energia enorme. O problema, em grande parte é que, num novo conjunto de ideias sugerido, a sociedade que o escolhe para execução através de seus dirigentes políticos, por exemplo, não está preparada para a compreensão de tais novos conceitos. Faltou-lhe o jogo livre das ideias por parte de cada indivíduo dirigente e a educação da comunidade para se adequar à teoria proposta. Além disso, o próprio conjunto de ideias novas, tem que conter em si uma liberdade para se fazer adequar constantemente às novas situações, reformulações ou imprevistos que possam aparecer eventualmente. Só depois deste processo longo e complexo, a execução prática poderia ser efectuada em constante monitoramento dialogal. Como já disse Voltaire: Se queres conversar comigo, define primeiro os termos que usas. No jogo livre discursivo, nenhuma ideia deve ter supremacia absoluta. Os participantes têm que esquecer o seu ponto de vista de lado, por um instante, para vossas mentes se manterem abertas para receber os novos conceitos do orador que tem a palavra naquele instante. Não pode haver contraste de ideias naquele instante. Os ouvintes têm que apreender as metáforas novas lhes sugeridas, sem erguerem as barreiras causadas por suas próprias ideias. Neste jogo livre, as mentes serão arremessadas para compreensões metafóricas inovadoras e alimentarão o potencial criativo do grupo. Num segundo momento, a sintonia entre a ideia e o acto pode ser alcançada plenamente e a sua distância diminuída aquando da execução.Em suma, acreditamos que este diálogo é o caminho inicial. E tem que ser um diálogo fraterno, livre de disputas, de punições, de gratificações ou de discriminações. Cada indivíduo, em diálogo constante consigo, não pode esperar bonificações, prestígio ou coisa parecida. O homem é um ser que, antes de tudo, comunica consigo, com os outros e com o cosmos, e a incompatibilidade dos seus actos é um resultado materializado não da comunicação, mas sim das falhas e defeitos da comunicação e por isso será um homem sensato aquele que, para decidir um homem está em paz ou em guerra consigo, ligar mais às palavras do que aos factos! (Demóstenes). Somente este diálogo livre e salvo das falhas da comunicação, fomentará o espírito criativo global, possibilitando a libertação das estruturas rígidas e permeando todas as áreas do conhecimento humano, num jogo interdisciplinar para a melhoria da humanidade.

Do Sofrimento e da Felicidade

SOFRIMENTO E CONHECIMENTO

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Todo o sofrimento que não seja ao mesmo tempo conhecimento é inútil. Não te esqueças, visto que sofrer é tão penoso. Em vez de sofrer pela vastidão de um desabamento, sofrer pela sua inutilidade. Não há horror que diminua pelo facto de sofrermos bestialmente; é preciso, pelo contrário, fitá-lo com calma e transformar a sua inutilidade em algo de útil, por meio da contemplação.
Resta saber a realidade actual da morte que, abolindo o sujeito suprime também a contemplação. Mas, então, é ainda mais inútil sofrer. Contemplar até ao último momento, sem pestanejar, continua a ser o sistema mais prático.
... Was't drink up eisel? eat a crocodile?*

*(Que se há-de fazer? Comer um crocodilo?)

O SEGREDO DA FELICIDADE

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Porque é que as pessoas assumem poses e "armam" em dândis, ou cépticos, ou estóicos, ou ainda "sans-souci"** etc? Porque sentem que há uma superioridade no enfrentar a vida segundo uma força, uma disciplina que podemos impor, pelo menos, aos nossos pensamentos.
É de facto aqui que reside o segredo da felicidade: assumir uma atitude, um estilo, um molde onde vão cair e caldear-se todas as nossas impressões e expressões.
Toda a vida vivida segundo um modelo corrente, compreensivo e vital, é clássica.

**(Descontraídas)


(Cesare Pavese- O ofício de viver. Edição: Relógio D'Água, 2004. Fotografias de William Ropp)

segunda-feira, setembro 04, 2006

O Jogador (Partilha Literária)




“No primeiro contacto, tudo me pareceu sujo, moralmente sujo e abjecto. Não pretendo referir-me aos rostos ávidos e inquietos que, às dezenas, às centenas mesmo, assaltam as mesas de jogo. Não vejo, decididamente, nada de indecente no desejo de ganhar depressa e o mais que for possível. Sempre achei inepta a ideia desse bem alimentado e refastelado moralista que, ao alegarem-lhe serem pouco vultuosas as quantias que se jogam, respondeu: «É ainda pior, porque se trata de cupidez perdulária». [...], e quanto a ganhos e perdas, as pessoas, na roleta e em todas as outras coisas, só têm um objectivo: ganhar ou roubar seja o que for a outrem. Serão o lucro e o proveito sórdidos em si mesmo? Isso é outra questão. Não é aqui que a vou resolver. Como eu próprio estava, no mais alto grau, possuído pelo desejo de ganhar, toda essa cupidez, toda essa infâmia da cupidez, se assim quereis, era-me, desde a minha entrada na sala, mais próxima, mais familiar, por assim dizer. Não há nada mais agradável do que não ter perturbações diante os outros e agir abertamente e sem comedimentos. E para quê enganarmo-nos? É a mais vã e a mais considerada das ocupações.”

in
“O Jogador” de Fiódor Dostoiévski [Editorial Presença]

Nesta partilha literária, irei falar-vos um pouco de um dos livros que tenho vindo a ler, nas últimas semanas: “O Jogador” de Fiódor Dostoiévski...
O livro “O Jogador” conta a história de Aleksei Ivánovitch, um jovem provido de um elevado sentido crítico, que após várias visitas ao casino da cidade alemã de Roulettenburg, para ganhar dinheiro para Polina Aleksandróvna (a sua amada), descobre em si a paixão compulsiva pelo jogo, pela roleta. O seu problema agrava-se quando procura enriquecer, à força do “rodar da bolinha”, para conquistar Polina... Será que conseguirá conquista-la? Será que conseguirá vencer o vício do jogo?...Não sei! Ainda não terminei esta leitura... :D ...

domingo, setembro 03, 2006

Exposição do fotógrafo Craigie Horsfield em Lisboa



Até 24 de Setembro, o Centro de Arte Moderna, em Lisboa, vai ter patente uma exposição do fotógrafo britânico Craigie Horsfield. Depois da sua passagem pelo Jeu de Paume, em Paris, a exposição de fotografias a preto e branco de grande escala, feitas ao longo dos últimos 30 anos, chega a Portugal. Além de uma série de imagens caracterizadas por um preto e branco muito escuro e denso, pelo qual Horsfield é muito conhecido, este autor também apresenta uma instalação vídeo. A mostra pode ser visitada de terça a domingo, das 10h00 às 18h00.


CRAIGIE HORSFIELD
De 19/07/2006 a 24/09/2006 10h00 às 18h00
Piso 1 CAMJAP

A obra do fotógrafo inglês Craigie Horsfield tem vindo a tornar-se uma referência para toda a reflexão sobre a representação na arte contemporânea. Desenvolvidas silenciosamente ao longo dos últimos 30 anos, as suas imagens constroem uma presença visual poderosa e absorvente, paradoxalmente construída numa escala discreta e simples.
Exposição organizada pelo Jeu de paume em colaboração com o Centro de Arte Moderna José de Azevedo Perdigão / Fundação Calouste Gulbenkian Lisboa e o Museum of Contemporary Art, Sydney, Austrália.

Palavras na Rua


A Câmara Municipal e a Associação para a Defesa do Património da Região de Beja organizam nos dias 21, 22 e 23 de Setembro, na Biblioteca José Saramago, um encontro de 250 mediadores de leitura, narradores de todo o país e 50 especialistas nacionais e estrangeiros, noticia o 'Diário do Alentejo'. Para além da troca de saberes nas conferências, mais de 15 oficinas trabalham a leitura em voz alta, a escrita criativa, a ilustração, a narração e a animação da leitura. De Beja sairá depois uma estafeta, que durante três meses percorrerá mais de 53 bibliotecas portuguesas, onde se experimentarão novas formas de contar. Cada vez mais as cidades de província organizam eventos culturais e científicos que Lisboa e Porto desdenham. E isso é bom.

Fonte: Notícias Sábado, nº 34 (2 de Setembro de 2006)

Autódromo do Estoril


Já não é preciso ser piloto de competição para poder voar no autódromo do Estoril... para os fanáticos pela velocidade, como eu, esta é a oportunidade ideal para experimentar o prazer da velocidade sem colocar [mais] ninguém em risco. Fenómeno de tradição na Europa é recente em Portugal e está para ficar...

Festa Do Cinema Francês (2006)

Inaugura hoje em Lisboa a 6ª Festa do Cinema Francês, que se prolonga até 03 de Novembro e prevê a apresentação de 29 películas.

Além de Lisboa, a mostra decorrerá no Porto, Coimbra e Faro e inclui uma homenagem na Cinemateca portuguesa à actriz Fanny Ardant, alargando-se também a Festa às FNAC do Chiado, em Lisboa, e de Almada.
Além de Costa-Gavras, também o actor José Garcia, protagonista do filme "Le Couperet", participa hoje na sessão inaugural, no Fórum Lisboa.
José Garcia estará aliás em cartaz com três filmes, no âmbito desta Festa: "Le Couperet", "Après vous" e "Boîte noire".
Outro ecrã desta festa é o canal 2:, da televisão pública, que exibirá três filmes, o primeiro dos quais, "A inglesa e o duque" de Eric Rohmer, já no próximo sábado.
O certame apresenta várias estreias cinematográficas, no auditório do Instituto Franco-Português serão exibidos oito filmes e os restantes no Fórum Lisboa.
Além de Lisboa, a Festa acontece no Porto de 13 a 16 de Outubro, em Coimbra de 17 a 20 de Outubro, contando com a presença da actriz Brigitte Rouan, e em Faro de 01 a 03 de Novembro.
Nas quatro cidades portuguesas serão apresentados os mais recentes filmes dos realizadores franceses Cédric Klapisch, Dominik Moll, François Ozon, Christian Carion, Costa-Gavras e Robert Guédiguian".
A 6ª Festa do Cinema Francês homenageia este ano as escolas de cinema, entre as quais a Superior de Teatro e Cinema portuguesa e a francesa FEMIS, de Paris.

Fonte: Agência LUSA

Terras de Café


É quando o tempo começa a arrefecer, ou mesmo nos dias chuvosos, que mais o frequento. Durante a Primavera "sabe-me" a retorno às minhas origens o cheirinho fresco da relva e o chilrear dos passarinhos. Seja apenas acompanhada por um bom café, um chá especial, a ler, a escrever, a desenhar, a conversar, a rir, a chorar ou até a observar os melros e as andorinhas nas suas brincadeiras, este espaço é dos mais serenos e especiais dos inúmeros que esta cidade tem para oferecer. Aconselho-o, então, a todos os que aqui vivem e a todos aqueles que nos visitam. Além de usufruirmos de um óptimo serviço temos o prazer de ver que aqui a Natureza permanece [quase] intocada. Refiro-me, claro, ao Terras De Café das simpáticas Ana e Paula na galeria comercial do Hotel da Cartuxa [Évora]. ;)
Telefone: 266 706 913

Herdade do Grou


Sugestão de fim-de-semana relaxado longe da azáfama stressante da cidade na Herdade do Grou. Em tempo de vindimas pode deliciar-se com todo o processo do vinho até chegar à sua mesa ou mesmo divertir-se com actividades de turismo rural (cavalos, piscina, barragem, bicicletas...).
Herdade dos Grous, Albernoa
Tel. 284 960 000

Arte Equestre

Visite a Gala da Escola Portuguesa de Arte Equestre, nos jardins do Palácio de Queluz. Dez cavalos lusitanos que apresentam vários exercícios. Para os amantes dos equinos (como eu que até já tive um verdadeiro lusitano) e para todos os outros que apreciam, de forma geral, os animais. Todas as quartas feiras do mês de Setembro às 11h00.

Bilhetes - 8€
Treinos diários abertos ao público das 10h às 13h.

Link: http://www.cavalonet.com/epae/

Festival Internacional de Toronto 2006

Começa esta semana.......................... a janela para os Óscares ;)

Link: http://www.e.bell.ca/filmfest/2006/home/default.asp

sábado, setembro 02, 2006

10º Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa


De 15 a 24 de Setembro, os cinemas Quarteto e São Jorge e o Instituto Franco-Português são os palcos do 10º Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa que este ano foca os temas da homofobia e da transfobia. Com uma programação genericamente dominada pelas representações das expressões queer, a cinematografia apresentada compete em várias categorias: Melhor Longa-Metragem, Melhor Documentário e Melhor Curta-Metragem. Existem também sessões de Documentário, Fora de Competição (Longa-Metragem, Documentário e Curta-Metragem), Vive la Queeer France, Hard-Night, Retrospectiva Histórica de Cinema LGBT Espanhol, Panorama Circuito Comercial 2005/2006 e Ciclo de Cinema Digital, que decorre entre 25 a 29 de Setembro, no Goethe-Institut.

Mais informações:www.lisbonfilmfest.com

Informações Úteis:
Cinema Quarteto | Rua das Flores de Lima, 16 | 217 971 378
Cinema São Jorge | Av. da Liberdade, 175 | 213 103 402
Instituto Franco-Português | Av. Luís Bívar, 91 | 213 111 400

Bilhetes:3€, 2€

quinta-feira, agosto 31, 2006

o senhor biva

Fui falar com o senhor Biva. Recebeu-me num estábulo que transformara em biblioteca. Pergunto-lhe: há quanto tempo não sai de casa?
- Que importância tem isso?
- As pessoas gostam de saber.
- Há uma semana. Só saio para me reunir com o pessoal.
- Diga-me, senhor Biva: no contexto literário português onde colocaria a obra de Lobo Antunes?
- Colocava-a ao lado do Joyce, numa prateleira na despensa onde tenho um viveiro de traças.
- E onde colocava os livros de Miguel Sousa Tavares?
- Numa máquina trituradora e fazia croquetes.
- Sei que tem um apreço reservado pela obra da Margarida Rebelo Pinto. Onde colocaria os seus livros?
- Punha-os na cama quando a minha mulher está com o período.
- E os livros de Miguel Esteves Cardoso?
- Colocava-os dentro dum preservativo e ia às putas com eles.
- É do conhecimento público que testemunhou o início literário de José Riço Direitinho. Onde colocaria os seus livros?
- Besuntava-os com alho e pendurava-os por cima da porta para afastar os fantasmas da imaginação.
- E a imensa obra de Gonçalo M. Tavares?
- Colocava-a dentro de uma pia de água benta, juntava-lhe um quilo de farinha filosófica e uma colher de fermento psicológico (pode ser a colher de Samuel), depois fazia uma papa generosa e alimentava os pobres de espírito.
- Sei que não suporta o Jorge Reis-Sá, mas faço-lhe a mesma pergunta.
- Fazia uma encomenda dos seus livritos e enviava-os para uma instituição de apoio à imbecilidade (com despesas a suportar pelo próprio autor).
- E onde colocaria os livros dessa figura pública que dá pelo nome de José Rodrigues dos Santos?
- Entre as maminhas da Adília Lopes.
- Mas essa poetisa é muito considerada.
- É uma Florbela Espanca em versão hardcore.
- Também acompanhou o início de carreira literária de Possidónio Cachapa. Onde colocaria os seus livros?
- Numa fogueira em noite de S. João.
- Está a ser muito vago, senhor Biva.
- Ok. Quando esse autor apareceu cá no meio escreveram que ele tinha feito uma entrada fulminante na literatura portuguesa. Agora verifica-se que foi só pólvora seca.
- E Maria do Rosário Pedreira?
- Atava os seus livritos e escondia-os dentro das barbas de Henrik Ibsen.
- Mas as barbas dele não são assim tão vastas.
- Isso não é importante. Reduz-se a obra ao tamanho da mediocridade.
- Onde colocaria os livros de Fernando Pinto do Amaral?
- Colocava-os juntos com o enxoval literário da Inês Pedrosa.
- E os dela?
- Enviava-os para reciclagem a um estilista moral para criar lingerie.
- E a pequena obra de Alexandre Andrade?
- Colocava-a na abertura do jornal de informação da tvi, com os apresentadores a cuspirem espinhas de estilo e bolas de totoloto.
- Onde colocaria a obra ensaística de Eduardo Prado Coelho?
- Talvez o melhor lugar fosse no cesto das cebolas.
- Para terminar, senhor Biva: qual é a sua opinião sobre o romance português?
- Muita palha para muitos burros.
- E a poesia?
- Muita água e tão pouca higiene.
- Só mais uma pergunta: onde colocaria os livros de João Pedro George?
- Na mesa-de-cabeceira da margarida Rebelo Pinto, dentro do penico.
- Isto vai trazer-lhe problemas, senhor Biva.
- Não tem importância.
- Agora sim, mesmo para terminar: onde colocaria a sua própria obra?
- No útero da minha mãe.

Nota – este é um texto de ficção. Qualquer relação com a realidade até pode não ser coincidência. Muitos nomes ficaram de fora da análise do senhor Biva. Insisti com ele para que a lista fosse mais substancial. Ele recusou sempre e alegou cobardia.

in textos de BIVA

Publicado por Fernando Esteves Pinto AQUI

quarta-feira, agosto 30, 2006

Debate O OLHAR CRÍTICO na Culturgest



O blog 'O Melhor Anjo' da autoria do crítico Tiago Bartolomeu Costa comemora 3 anos a 08 de Setembro, com um debate sobre a crítica de artes performativas, intitulado O OLHAR CRÍTICO. O debate decorre no dia 08 de Setembro, às 18h00, na Culturgest, e conta com a presença de Augusto M. Seabra (sociólogo e crítico, Público), Maria José Fazenda (antropóloga, ex-crítica, Público), Miguel-Pedro Quadrio (professor universitário, crítico, Diário de Notícias) e Tiago Bartolomeu Costa (autor do blog 'O Melhor Anjo', crítico de dança no Público). Moderação de Mónica Guerreiro (consultora no Instituto das Artes, ex-crítica, Blitz).


Sendo, até à data, o único espaço virtual dedicado exclusivamente à crítica e reflexão sobre artes performativas tem, através da publicação regular, procurado criar uma alternativa para o discurso crítico.
Com o tempo tem vindo a constituir-se como uma relevante base de informações, onde se reúnem contributos de diversos autores, se propõem outras abordagens para os objectos artísticos, se buscam formas de contrariar a efemeridade dos espectáculos, ao mesmo tempo que procura pensar sobre o lugar da crítica e do discurso crítico. Para celebrar este aniversário 'O Melhor Anjo' propõe, em colaboração com vários espaços na cidade, um conjunto de iniciativas sob o signo da observação, que mais não querem do que contribuir para uma maior discussão sobre o papel da crítica num contexto cultural tão carente de discussão (e, por vezes, cúmplice dessa carência). Uma festa para a qual estão todos convidados.


Tiago Bartolomeu Costa

***
Mais informações:
o_melhor_anjo_@aeiou.pt

[Tiago Bartolomeu Costa é crítico de teatro e dança. Colabora com várias publicações nacionais e estrangeiras, entre as quais, o jornal Público, as revistas Mouvement, Ballet-Tanz e Sinais de Cena e o site http://www.idanca.net/. É editor do blog de crítica O Melhor Anjo e membro do Conselho Consultivo Internacional do festival Divadelná Nitra, na Eslováquia.]

Mostra Internazionale d'Arte Cinematografica


O Festival de Veneza é um festival internacional de cinema que é realizado anualmente na cidade de Veneza, em Itália, desde 1932.

Mais Informações

O mais antigo festival de cinema da Europa começa hoje em Veneza, com 21 filmes em competição, entre os quais as últimas películas de Stephen Frears, Brian de Palma e Alain Resnais.
Nesta 63ª edição do certame, o cinema português está ausente da corrida ao Leão de Ouro, mas, fora da competição, será exibida em estreia mundial, no próximo dia 8, o mais recente filme de Manoel de Oliveira, «Belle Toujours», com Bulle Ogier e Michel Piccoli.

Fonte: Diário Digital / Lusa

Satanás (Cont.)

Sem mais delongas, e tal como referi ontem, eis mais alguns excertos de Satanás, de Mário Mendoza:

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- Tenho medo, padre.
- Porquê?
- Estou a enlouquecer.
- Que se passa?
- Tenho pensamentos atrozes.
- Conta-me.
- Não tenho perdão.
- Deus é infinitamente misericordioso, filho, o seu perdão não tem limites.
A igreja está vazia, sem o ruído de passos e de murmúrios provocado pelos paroquianos ao longo da nave central. Uma luz ténue entra pelos vitrais do tecto e espalha-se em brilhos multicolores que dão ao lugar um ar de irrealidade, como se se tratasse de uma imagem onírica, sonhada, e não de objectos e de lugares palpáveis e reais. O padre Ernesto está sentado no confessionário e a voz que lhe chega revela angústia e desespero, noites de insónia, medo de si próprio, uns nervos prestes a explodir e uma mente que roça o delírio e a demência de forma perigosa. (...)
- Confia em Deus, filho.
Ouve-se do outro lado uma respiração entrecortada, afogada, difícil. Finalmente, o homem decide falar:
- Não sei o que me passa pela cabeça, padre, não me reconheço, este não sou eu.
- Conta-me pouco a pouco.
(...)
- Tudo começou com a perda do meu trabalho, padre. Fiquei sem emprego e foi-me impossível encontrar outro, os meses passam e nada, não havia uma vaga em lado nenhum, algumas horas de trabalho, uma colocação temporária, nada. Perdemos o apartamento onde vivíamos e penhoraram-nos os móveis, a roupa, os electrodomésticos, tudo. Fomos viver para casa dos pais da minha mulher com as duas meninas. Pode imaginar o que foi aquele pesadelo, as brigas, as discussões, as lutas de manhã à noite.
- Sim, filho, compreendo.
- O meu sogro morreu e toda a família dizia que tinha sido por nossa culpa, que o venho tinha morrido porque já não aguentava. Passado um mês, morreu a minha sogra de tanto desgosto. A minha mulher disse-me no dia do funeral: "Tu mataste-os, deixaste-me órfã."
- Frases que se dizem por impotência, filho, com zanga e irritação.
- Depois veio a fome, padre, a fome física, as dores de estômago das minhas duas filhas, a anemia, a desnutrição, as constipações recorrentes, a falta de sono. A minha mulher disse que não pensava deixar morrer as filhas de fome e foi para a praça do mercado mendigar, apanhar do chão frutos podres, verduras esmagadas, pedaços de pão esquecidos.
- Sinto muito, filho.
- E agora cheguei ao limite, padre. Tenho sonhos que me visitam até de dia, assim que fecho os olhos. Quero libertar a minha mulher e as minhas filhas do sofrimento, não desejo mais dor para elas.
- Acalma-te.
- Quero matá-las, padre. Vejo-as a toda a hora manchadas de sangue, esfaqueadas pela minha mão. Cheguei a passear pela casa durante a noite, tremendo, febril, invadido pela vontade de matar. Entende-me, padre?
- Não te assustes, filho. Deus não permitirá uma coisa dessas.
- Quero assassiná-las, padre, mas por amor, porque não quero que continuem a sofrer desta maneira. Tenho de as ajudar, de as libertar deste horror.
- Vamos rezar juntos, filhos, vamos pedir por ti e pela tua família. Deus ouvir-nos-á.
O padre Ernesto entoa uma prece e depois repete um Pai-Nosso e uma Ave-Maria acompanhada pela voz do homem. Depois pergunta:
- Estás arrependido, filho?
- Não sei, padre, não sei se estou arrependido. Já lhe disse que tudo o que me vem à cabeça é por amor.
- Para que Deus te perdoe, tens de estar arrependido.
- Pois...
(...)
O que precisa fazer é arranjar quanto antes um trabalho àquele homem, seja no que for, e, entretanto, recorrer aos fundos de emergência da igreja e da caridade alheia para arranjar um sustento que permita às suas duas filhas, à mulher e a ele próprio, alimentar-se e recuperar da inanição e da doença. Depois será muito mais fácil derrotar aquela força maligna que se apoderou do seu espírito, aqueles instintos criminosos disfarçados de bondade e benevolência.
Uma mulher obesa que vem a subir pela mesma rua levanta a mão direita pedindo-lhe para parar e diz-lhe com a voz alarmada e inquieta:
- Que sorte encontrá-lo, padre.
A expressão faz o padre Ernesto sorrir.
- A mim?
- Sim, padre.
- E pode saber-se porquê?
A mulher recupera o fôlego e diz-lhe:
- Estão à sua procura por toda a parte Acaba de me dizer a minha filha.
- E quem precisa de mim com tanta urgência?
- As pessoas estão reunidas na igreja.
- A missa é só às sete - diz o padre Ernesto, perplexo.
- Estão à sua espera há uma hora.
- Mas o que aconteceu?
- É melhor ir depressa, padre.
(...)
O padre Ernesto passa por entre o povo sem cumprimentar ninguém e entra na igreja com a suspeita de saber quem o espera dentro do recinto sagrado. Ajoelhado diante do altar com a cabeça inclinada sobre o peito e com uma faca ensaguentada no chão a poucos centímetros dele, um homem magro e encurvado parece estar a afogar-se na torrente do seu próprio pranto
.

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Maria chega à rua e percorre alguns quarteirões até à avenida principal. Estica o braço e um taxi pára junto dela para a recolher. Abre a porta traseira e senta-se com os joelhos unidos e com a carteira no colo.
- Para a Carrera Quince com a Calle Setenta y Seis, por favor.
- Claro, boneca - diz uma voz amável e juvenil.
Fecha a porta do taxi e observa pela primeia vez o aspecto do taxista. É um homem de uns vinte e quatro anos, com uns jeans e uma camisola de algodão desportiva, que a observa de vez em quando através do espelho retrovisor. Maria apercebe-se de que a cadeira do co-piloto está inclinada para a frente, permitindo ao passageiro esticar as pernas à vontade.
O taxi roda pela Avenida Diecinueve em direcção ao Sul. No semáforo da Calle Cien, em vez de voltar à esquerda para se dirigir à Carrera Once, o condutor volta à direita, na direcção da Auto-Estrada Norte.
Maria repara no engano:
- Para onde vai?
- Vou pela auto-estrada.
- E porque não vai pela Carrera Once?
- Por aqui é mais rápido.
(...)
O taxi passa a Calle Noventa y Dos e segue em frente. O homem conduz a uma velocidade média, sem pressa, como se gozasse da tensão crescente que se sente dentro do automóvel.
- És muito pouco conversadora, boneca.
- Tenho pressa.
- São assim as meninas ricas, não gostam de falar com os pobres.
- Eu não sou nenhuma menina rica.
- Deixe-se de tontices, lourinha - a voz é agora agressiva, dura, intimidativa. - Se fosse pobre não andaria na farra na Zona Norte, nem viveria onde vive, nem usaria a roupa que usa.
- Engana-se...
- Cale a boca, lourinha, que estou a ficar com mau génio.
- Faça o favor de parar. Vou sair.
- Ah sim?
- Pare aqui, por favor.
- Você julga que pode dar ordens. Não maninha, enganou-se. Aqui quem dá as ordens sou eu.
A determinada altura, o banco do passageiro levanta-se e, da parte dianteira do carro, um homem que estava agachado e bem escondido aparece como por magia e por artes de prestidigitação. É da mesma idade do condutor e tem uma navalha na mão direita.
- O que é isto? - pergunta Maria com o coração a bater aceleradamente.
- Surpresa - diz o homem com uma voz esganiçada - , eu sou o coelho que estava dentro da cartola.
(...)
O carro atravessa a Carrera Treinta, a Avenida Sesenta y Ocho e a Avenida Boyacá e pára num descampado, nos arredores de Bogotá. O condutor desliga o motor. O silêncio da noite é total. Um ou dois carros ocasionais ouvem-se de vez em quando ao longe. O co-piloto ordena:
- Vamos para baixo, loirinha.
Maria sente que as pernas não lhe respondem muito bem. O medo mantém-na paralisada, com os músculos imóveis e entorpecidos.
- Não ouviu, loirinha? Acorde.
Acaba por conseguir abrir a porta e sair do carro desajeitadamente. Em pânico, observa os números da matrícula pintados num dos lados do taxi. Os dois homens saem sorridentes e aproximam-se esfregando as mãos. O que vinha a conduzir tira uma moeda e pergunta ao outro: - Cara ou coroa?
- Coroa - responde o da navalha.
A moeda dá voltas no ar e cai na palma da mão do condutor.
- Cara - diz este. - Calha-me a mim primeiro.
Aproxima-se de Maria e ordena-lhe:
- Vamos, meu amor.
- Por favor, não me façam mal.
- Vamos - torna a dizer o homem, empurrando-a até a deixar reclinada no banco traseiro do carro. Senta-se ao lado dela e fecha a porta.- Vamos, tiro-lhe a blusinha para agarrar nessas tetas.
- Peço-lhe.
(...)
Tira o casaco com brusquidão, dá um puxão, rasga-lhe a blusa e atira-a para o chão do carro, puxa o soutien para cima e começa a beijar-lhe e a acariciar-lhe os seios, respirando como um animal.
- Que par de tetas tão boas, bonequinha.
Maria não consegue mexer-se nem dizer nada. Vê o homem beijá-la e apalpá-la mas não sente nada, é como se o seu corpo pertencesse a outra mulher e ela estivesse a presenciar a sua violação.
(...)
Despe-se rapidamente e, com o membro erecto, inclina-se sobre o corpo de Maria.
- Abre as pernas, bonequinha.
Separa-lhe as pernas à força e penetra-a violentamente, com a respiração entrecortada, como se estivesse a afogar-se. Repete como um autómato enquanto mexe as ancas de cima para baixo:
- Puta, puta, puta...
Maria não sente nada. Olha para o tecto do carro com o olhar perdido, alheado, desligado da realidade. O homem emite um longo gemido, fica imóvel um instante e senta-se de novo junto ao corpo da rapariga. Nessa altura repara nas manchas de sangue nas pernas dela, no banco, no seu pénis - agora flácido - e nos testículos.
- Meu amor, não me disseste que eras virgem.
Veste-se e abre a porta do carro. O homem da navalha está encostado à mala, passando a navalha de uma mão para a outra.
- Mano, a bonequinha era virgem.
- Sim?
- Tirei-lhe os três, imagina a delícia.
- Deixa passar, mano, que agora é a minha vez - diz o co-piloto, entrando no carro de sopetão.
Fecha a porta, pousa a navalha no chão e tira a roupa sem dizer uma palavra. Agarra Maria pelos ombros e dá-lhe a volta, pondo-a de barriga para baixo.
- Vou tirar-lhe a outra tampa, boneca, a do cuzinho.
Afasta as nádegas avantajadas de Maria com a mão esquerda, agarra no membro com a direita e mete-o pouco a pouco pelo ânus dela até o sentir bem aberto e dilatado. Não chega a durar cinco segundos e ejacula com os olhos fechados. É um acto rápido, prematuro. Maria chora com a cara afundada no banco. O tipo levanta-se, veste-se, agarra na navalha, dá uma palmada no traseiro de Maria e diz-lhe:
- Obrigado por esse rabo, boneca.
Sai do carro e dirige-se ao seu companheiro:
- Despachado, mestre.
- Que tal? - pergunta-lhe o condutor, aproximando-se.
- Bom, fui-lhe ao cu.
- Outra que perdeu a virgindade.
- Sim, mano, ficou a sangrar pela frente e por trás.
- Missão cumprida, vamos.
Fazem sair a sua vítima e deixam-na jogada no prado com a roupa junto dela. O táxi desaparece na escuridão.
Um vento frio e gelado obriga Maria a voltar a si. Veste-se com as mãos rígidas devido à baixa temperatura e calça os sapatos. Uma dor aguda, tenaz, percorre-lhe o corpo todo. Andando com dificuldade, aproxima-se da avenida para pedir ajuda. Lá em cima, no céu, uma lua cheia ilumina a noite como se fosse um refractor gigantesco rompendo as trevas.


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A campainha do telefone arranca Andrés das suas reflexões. Deixa a gravura em cima da secretária e levanta o auscultador:
- Está?
- Andrés?
- Sim, sou eu.
- É a Angélica.
- Olá, tudo bem?
- Preciso de te ver - diz ela com a voz num sussuro.
- Agora?
- Podemos conversar esta tarde?
- Não pode ser amanhã?
- É urgente.
- Aconteceu-te alguma coisa?
- Preciso de falar contigo.
- E tem de ser hoje?
- É muito importante, Andrés.
- Okay, diz-me onde.
- Na bilheteira do teleférico que sobe até Monserrate.
- Monserrate hoje?
- É um sítio tranquilo, sem gente, sem carros. Tenho de te contar uma coisa muito importante.
- A que horas?
- Achas bem às três?
- Combinado, às três na bilheteira.
- Não faltes, Andrés.
- Oiço-te como se fosse uma chamada de longa distância. O que te aconteceu?
- Prefiro dizê-lo pessoalmente.
- É grave?
Entre gemidos e suspiros ouve-se a voz longínqua dela:
- Muito.
(...)
Uma chuvinha começa a cair sobre a cidade às duas e meia da tarde. Andrés vai num táxi pela Avenida Circunvalar, contornando as montanhas, e observa as gotas de água batendo contra os vidros do carro. Interroga-se sobre que diacho terá acontecido a Angélica e deseja intimamente que não seja uma situação irremediável, mas antes um sofrimento passageiro, uma prova que depois de superada não deixa marcas indeléveis nem sequelas destrutivas. Às duas e cinquenta paga o que indica o taxímetro e desce diante da bilheteira do teleférico de Monserrate.
Angélica está à espera dele sentada nas escadas da antiga estação. Assim que o vê, atira-se a ele e abraça-o sem o largar, como se fossem enviá-los para países diferentes e estivessem a despedir-se nas partidas internacionais do aeroporto. Ele afasta-a um pouco para lhe dar um beijo e é nessa altura que descobre os pontos violáceos na cara dela. São manchas pequenas, minúsculas mas bastante visíveis, como se a pele manifestasse os rigores de uma varicela ou de um sarampo.
- O que te aconteceu? - pergunta-lhe sem a beijar.
- É disso que te quero falar.
(...)
Um longo silêncio augura uma mudança no rumo da conversa. Angélica pergunta de chofre:
- Porque me pintaste daquela maneira?
- Referes-te ao retrato?
- Sim.
- Não sei.
- Mas porque me pintaste como Proserpina nos infernos?
- Não sei, Angélica, pareceu-me ver em ti algumas parecenças com o quadro de Rossetti e quis prestar-lhe uma homenagem.
- Não estás a ser sincero comigo. Isto é muito importante para mim, não me evites. Diz-me por que apareço no Hades com as faces picadas e carcomidas.
- Não sei, juro-te...
- Tu não querias pintar-me.
- Não.
- Porquê?
Andrés apercebe-se da angústia que aflige Angélica, da necessidade que tem de uma resposta sincera e transparente. Não se pode furtar a isso e responde:
- Há algumas semanas fiz um retrato do meu tio Manuel. Pintei-o com algumas malformações na garganta. Telefonou-me passados alguns dias dizendo-me que tinha um tumor cancerígeno muito avançado precisamente nessa zona. Está em tratamento mas não melhora. O mais certo é morrer rapidamente.
- E porque o pintaste assim?
- Não sei, Angélica, sinto-me como se estivesse num pesadelo, é uma força irracional que de repente se apodera de mim, como se estivesse em transe, possesso, invadido por imagens que se impõem na tela. Tive tanto medo que nunca mais quis voltar a fazer retratos.
- Por isso não querias pintar-me.
- Sim.
- E por isso ficas com febre e adoeces.
- O desgaste deixa-me prostrado.
Angélica passa as mãos pelo cabelo, observa-o de soslaio e pergunta-lhe:
- O que sentiste quando estavas a pintar-me?
- A mesma coisa, vi-te com olheiras, cheia de chagas e o pincel encarregou-se de dar forma, na tela, a essas visões.
(...)
- Tenho de contar-te uma coisa muito grave - diz-lhe Angélica. Ele observa-lhe a pele da cara manchada pelos pequenos pontos que a desfiguram.
- Diz.
- As borbulhas que tenho são uma doença que se chama Molusco Contagioso.
- O que é isso?
- É uma doença de pele.
- Mas tem cura, imagino.
- Não é essa a questão.
- Não compreendo.
(...)
- Explica-me por que razão não é importante curar-se - insiste Andrés baixando a chávena e colocando-a na mesa.
- Porque o Molusco Contagioso é apenas uma manifestação de uma doença muito mais grave.
- Como assim?
Ela deixa de lado o café e diz em voz baixa:
- Fiz alguns exames e tenho sida, Andrés.
Angélica baixa a cabeça e limpa as lágrimas com a mão. Andrés continua a sentir que não está na realidade, mas num pesadelo do qual desajaria acordar quanto antes.
- Tens a certeza?
- Fiz um segundo exame e também deu positivo.
- E sabes desde quando és seropositiva?
- Não.
- Isso significa que também posso estar contagiado.
- Nós usámos sempre preservativo, lembras-te? - diz ela, deixando de chorar e assoando o nariz com os guardanapos da mesa.
- Então?
- Creio que foi depois, Andrés.
- Com quem estiveste durante este tempo?
- Esse é o problema - Angélica continua a falar num tom de voz muito baixo, quase em segredo.- Quando acabámos a nossa relação senti que ia morrer, não queria fazer nada, nem sequer levantar-me da cama. Mas depois odiei-te, senti que me tinhas ferido injustamente.
- Não foi isso, Angélica.
- Eu sei, eu sei, mas foi o que senti nessa altura. Quis vingar-me. Então comecei a ir para a cama com um e com outro. Ia a todas as festas e acabava na cama com o primeiro que mo propusesse. Como estava a tomar anticoncepcionais era-me indiferente que o tipo usasse preservativo ou não. A maior parte das vezes estava bêbada ou drogada. Cheguei a estar com dois ou três homens no mesmo dia.
Andrés suspira sem dizer nada. Ela conclui:
- Fui também para a cama com vários estrangeiros. Julgo que foi um deles que me contagiou.
Soam os sinos da igreja. Andrés ouve aquele ruído metálico atravessar o ar invernoso da tarde e sente, num instante revelador, que é novamente dono de si próprio, que chegou finalmente à realidade.


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O padre Ernesto, que esteve a rezar cerca de meia hora, levanta-se, benze-se e abre a porta do quarto para se dirigir ao escritório da casa sacerdotal. Irene, a jovem encarregada da limpeza e da cozinha, diz-lhe no corredor:
- A dona Esther já está à sua espera no escritório.
- Obrigado, Irene - responde o padre, apressando o passo e, por alguns instantes, os seus olhos detêm-se no corpo esbelto e voluptuoso da jovem.
Efectivamente, na salinha que faz as vezes de escritório, está uma mulher volumosa, de uns quarenta anos, vestida de preto e com os olhos injectados de sangue. Levanta-se para o cumprimentar.
- Boa tarde, padre.
- Boa tarde, filha, senta-te.
O sacerdote instala-se numa confortável poltrona diante dela, abre os braços e diz numa voz afectuosa e amigável:
- Bom, diz-me em que te posso ajudar.
A voz da mulher é apagada, ténue, muito fraca, revelando uma enorme fadiga e longas noites de insónia.
(...)
- Estou desesperada, padre, já não aguento mais.
- O que se passa?
Ela abre a carteira, tira um lenço creme e limpa as lágrimas.
- Aviso-o de que não quero que ninguém fique a saber disto, padre, não quero um escândalo, nem que a minha casa se transforme num foco de bisbilhotices e mexericos.
- O que me contares não sairá destas quatro paredes.
- Não quero andar por aí nas bocas do mundo.
- Bem, que se passa?
- Comigo nada, padre, é com a minha filha.
- Quantos anos tem ela?
- Acabou de fazer quinze. É uma beleza.
- Tem irmãos?
- Não, padre, é filha única.
- Tem uma boa relação convosco?
- Vivemos as duas sozinhas, padre. O senhor sabe como são os homens, vão semeando filhos e depois abandonam-nos sem que ninguém os condene.
- É uma rapariga ajuizada, sossegada?
- É um anjo, padre, se o senhor a visse... As freiras do colégio não se cansam de a elogiar.
- Então qual é o problema?
A expressão da cara da mulher transforma-se, ela abre os olhos, cora, franze a testa de uma maneira quase cómica, burlesca, e diz:
- As vozes, padre, as vozes...
- Que vozes?
- A minha menina está possuída por vozes que falam de coisas horríveis.
- Como?
- Pessoas malignas, espíritos do mal, padre, que falam através dos lábios da minha menina.
- Não a compreendo - diz o sacerdote, franzindo o sobrolho.
- É quase sempre à noite, quando se vai deitar. As pessoas entram dentro dela e começam a dizer obscenidades, a insultar, a prever factos terríveis.
- A senhora está a dizer-me que a sua filha está possessa?
- Por demónios, padre, por espíritos que vêm do inferno.
- Como é possível?- pergunta o padre Ernesto, agitando os braços e a cabeça negativamente.
- Sim, padre, tem de a ver com os seus próprios olhos.
- Já não existem possessões neste século, senhora. Tem de a levar a um hospital para que lhe façam exames neurológicos e psiquiátricos.


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Chegam diante de uma casa colonial localizada no centro de uma ruela mal iluminada. Uma trepadeira cobre uma grande parte da fachada principal.
- É aqui - diz a mulher, metendo uma chave na fechadura de uma porta de madeira.
Assim que atravessa o umbral, o padre Ernesto sente o aroma delicioso de um conjunto de flores vistosas que brilham com a pouca luz que chega até ao jardim interior da residência. A seguir descobre o cheiro exalado pelas paredes, pelos tectos e pela madeira das portas e dos móveis que decoram o local. Reconhece esse odor porque é o mesmo que se respira em mosteiros e conventos, em museus, nas câmaras municipais rurais, nas velhas herdades esquecidas e em certos recantos da sua própria igreja quando desaparece o efeito dos detergentes e dos desinfectantes. Finalmente, quando vai subido as escadas que levam ao primeiro andar, o seu olfacto regista um cheiro nauseabundo e desagradável: o cheiro das canalizações subterrâneas, o das águas negras que viajam pelos esgotos interiores da cidade, um cheiro a fedores corporais acumulados, urina, excrementos, vómitos, sémen e fluxos menstruais. São tão intensas aquelas emanações que vêm de cima que o padre Ernesto sente um ardor no interior dos olhos. E é nesse momento que tem um pressentimento, um palpite, a suspeita de que uma presença anormal está com eles dentro de casa.
(...)
Dona Esther pára diante da porta de um dos quartos do primeiro andar, respira profundamente e diz:
- Vou deixá-lo sozinho com ela, padre. A esta hora já está deitada.
(...)
Ela volta-se e desce as escadas sem olhar para trás. O padre Ernesto abre a porta e respira um ar pestilento, húmido, como se estivesse a entrar de repente num buraco de imundícies, numa cloaca imunda ou num dos mais sujos recantos do inferno. Sente vontade de vomitar mas consegue controlar o seu corpo pouco a pouco, inspirando devagar com a boca semiaberta, descontraindo o corpo, acostumando-se às rajadas fétidas e pestilentas. Fecha a porta e senta-se na única cadeira que há no quarto. Na cama, deitada de barriga para cima, está a rapariga com uma camisa da noite branca que a cobre até aos tornozelos.
(...)
- Agrado-lhe, padre? - diz de repente uma voz aflautada, felina, e a jovem ergue as pálpebras deixando a nu uns cintilantes olhos azuis.
- A tua mãe quer que conversemos.
- Não respondeu à minha pergunta.
- És muito bonita - garante o padre com calma, sem grande convicção, tirando importância ao que está a dizer.
- Deseja-me?
- Não vim ofender-te, filha.
- Sei que lhe agrado, padre, que quer tocar-me, acariciar-me.
- Estás enganada.
- Aproveite padre, toque-me onde quiser.
- Não me insultes dessa forma. Lembra-te que sou um sacerdote.
Ela sorri com uma careta perversa e a voz que o padre Ernesto ouve a seguir é grossa, varonil, como se um homem adulto tivesse acabado de entrar no quarto e estivesse também na cama, junto dela.
- Qual sacerdote qual carapuça, cão lascivo, verme asqueroso.
Um arrepio percorre as costas do padre Ernesto de cima a baixo.
- Pensas que não sei quem és? Achas que me vais enganar com os teus sermões piedosos? Olha o que vou fazer para ti, porco.
A rapariga levanta a camisa da noite até ao umbigo, mete a mão numas cuecas pequenas e insinuantes e acaricia o sexo com os dedos da mão direita.
- Preciso de um homem, padre - a voz torna a ser a de uma jovenzinha delicada.
- Já chega - diz o sacerdote com a voz agitada.
Ela tira a mão e explode numa gargalhada grotesca.
- Eu sei quem és, porco - continua a dizer a mesma voz.
- Não sei de que estás a falar - afirma o sacerdote transtornado, enjoado, com o estômago agitado.
- O pedacito de carne que tens entre as pernas dá-te trabalho, hã?
- Cala-te!
- Por aí ofendes a tua fá, hã?... Cabrãozinho libidinoso...
(...)
A voz grossa volta a surgir e termina dizendo:
- Filho da puta, criminoso, és um cachorro cheio de pecados.
O padre Ernesto não aguenta mais, levanta-se e, com um salto, chega até à porta, abre-a e sai do quarto com falta de ar, chorando. O pior é que, ao fechar a porta, repara numa forte erecção que lhe levanta as calças e que as avoluma de uma forma vergonhosa, contra a sua vontade.



(Mario Mendoza- Ibidem. Fotografias de William Ropp)


Com este post concluo a apresentação de Satanás. Espero que tenham gostado e que as minhas escolhas tenham sido suficientemente significativas para vos atrair para a leitura integral da obra. Um abraço a todos :)

terça-feira, agosto 29, 2006

Satanás

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Trago-vos, hoje, um livro muito especial para mim. Um livro que teve um grande impacto sobre o meu espírito. Um livro que me permitiu reflectir bastante. Um livro que me levou a (re)olhar para o mundo, não por aquilo que eu desconhecesse existir, mas atendendo à(s) forma(s) como a(s) realidade(s) poderia(m) ser entendida(s) e explicada(s). Falo-vos de Satanás, romance da autoria do colombiano Mario Mendoza (n. 1964, Bogotá), com edição da responsabilidade da Temas e Debates. Um livro que inaugura a colecção "Radiografias", cujo objectivo é divulgar obras que, através da ficção, apresentem os grandes problemas da sociedade contemporânea.

Tendo como cenário a cidade de Bogotá (capital da Colombia), Satanás debruça-se sobre a presença do Bem e do Mal na passagem dos dias, que nada mais é do que a sua concretização na passagem dos tempos e, directamente, na vida dos indivíduos. Nesta dupla vertente, o Mal impõe-se de forma brutal, engolindo tudo e todos, mesmo quando parece haver algum raio de esperança ou o acreditar que o melhor é possível. Uma existência/presença que envolve... que vai envolvendo até ao sufocar e carcomir dos seres humanos. Uma presença (que é "a" presença) que transtorna psiquicamente, que manipula, que vira do avesso, que desracionaliza na senda constante do enegrecimento individual e paralela/consequentemente colectivo.
Ao longo da estória, que se pode desdobrar em várias estórias confluentes para um final comum, temos um olhar sobre quatro personagens (principais): Maria, Andrés, padre Ernesto e Campo Elias.

Convém referir que Campo Elias (46 anos, na altura), um antigo colega de faculdade do autor (22/23 anos, tb na altura), foi o móbil para a elaboração desta obra. E quem foi? Um indivíduo que a 4 de Dezembro de 1986, assassinou 29 pessoas em vários pontos de Bogotá. O que aconteceu marcou profundamente Mendoza, sendo que durante vários anos amadureceu a ideia de construção de um romance, o qual, só viria a ser concluído já neste novo século.
Satanás foi galardoado com o Prémio Biblioteca Breve 2002.

Os excertos que se seguem procuram, pois, dar a ideia global do grande tema ou da grande preocupação subjacentes ao livro através, sobretudo, de reflexões desenvolvidas. Aqueles que editarei, amanhã, incidirão sobre situações concretas onde o tal Mal está presente quer através de vontades, quer através de práticas, ou seja, em contextos envolventes aos indivíduos ou já no seu interior, conduzindo-os irremediavelmente.

Reforçando o que já disse: o livro é extremamente forte, vertiginoso, hipersensorial. Violento. É devorável. Aconselho vivamente a sua leitura integral. Acreditem: absolutamente a não perder!


DIÁRIO DE UM FUTURO ASSASSINO

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20 DE OUTUBRO: Esta manhã, a minha aluna particular de Inglês surpreendeu-me com um comentário engenhoso. É uma jovem de catorze anos. Estou a ensinar-lhe o idioma recorrendo ao romance de Robert Louis Stevenson, O Estranho Caso do Doutor Jekill e Mister Hyde. Com o livro nos joelhos disse-me:
- O senhor gosta muito deste livro.
- Sim - reconheci.
- Não mo deu para ler apenas para me ensinar inglês, não é verdade?
- Não entendo.
- Há mais qualquer coisa. - Sorri para comigo. Ela continuou: - A história de Jekill é a de qualquer homem.
- Achas?
- A sua, a minha, a de qualquer pessoa.
- Como?
- Somos anjos e demónios ao mesmo tempo. Não somos uma única pessoa, mas uma contradição, uma complexidade de forças que lutam dentro de nós.
- Talvez sim.
- Somos cobardes e heróis, santos e pecadores, bons e maus. Tudo depende dessa luta, não acha?
- Sim, se calhar - disse, espantado por ouvir uma opinião tão inteligente numa rapariga daquela idade.
- Eu acho. O bem e o mal não existem separados, cada um por seu lado, mas unidos, colados. E às vezes confundem-se.


CÍRCULOS INFERNAIS

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Sentado no escritório à mesa de trabalho, o padre Ernesto folheia os recortes de imprensa que guarda numa pasta de estudante, arquivados durante anos numa sequência maldita e nefasta que cobre o último decénio. Trata-se de uma série de artigos, de pequenas notas de jornal ou de fotografias que lhe chamaram a atenção e que mostram a decomposição gradual do mundo. Com a mão direita levanta uma das folhas e detém-se na fotografia de um rapaz de uns dezassete anos que olha para a máquina com uma cara de miúdo assustado enquanto três polícias altos e corpulentos tentam algemá-lo. A legenda da fotografia diz: "Três revólveres, cinco caixas de munições, um lança-foguetes e sete obuses de morteiro foram encontrados na casa de César Padilha, um estudante do sexto ano do secundário. Face às perguntas dos investigadores, o jovem Padilha afirmou: "Só queria estar preparado para qualquer eventualidade."
(...)
O padre Ernesto passou mais algumas páginas e detém-se na fotografia de uma rapariga loura de dezoito ou dezanove anos que é levada com os pulsos algemados por uma patrulha da Polícia. O rosto da jovem está calmo, repousado, em paz. Ao lado da fotografia, a redacção do jornal explica: "A adolescente Carmen Romero manteve os pais amarrados e a pão e água durante catorze dias na cave da casa onde viviam os três. No último minuto, quando ouviu a chegada de vários agentes da Polícia, Carmen estrangulou os progenitores com as próprias mãos. Os cadáveres mostravam contusões, queimaduras e fracturas quer nas extremidades superiores quer nas inferiores, o que comprova que o casal foi brutalmente torturado pela sua própria filha no decurso das duas semanas de detenção. Ao ouvir um dos polícias, impressionado com a cena, comentar "isto é uma loucura", Carmen Romero rompeu o silêncio e afirmou: "Loucos eram eles, não eu. O meu pai começou a violar-me desde criança com a cumplicidade da minha mãe, que o permitiu sem dizer nada. Muitas vezes ele sujeitou-me à força de pancada e de pontapés e ela nunca me protegeu, nunca impediu as agressões. Eles sofreram duas semanas. Eu sofri por mais de dez anos."
Noutro recorte, em letras de imprensa, aparece a seguinte notícia: "A enfermeira Conchita Rubio foi detida no lar de terceira idade El Abuelo Feliz por ter envenenado mais de catorze idosos. Ao ser interrogada por este jornal, a enfermeira defendeu-se argumentando que o fizera por compaixão, comovida pela triste situação dos pacientes. "A maior parte deles passa o tempo a chorar, sentindo saudades dos filhos e dos netos. Achei que a morte era uma saída decente para eles", disse a senhora Rubio."
Na última folha o sacerdote reconhece a sua própria letra. É uma citação de Louis J. Halle copiada à mão com o pulso trémulo: "Prevejo a extensão de uma desordem contínua, com o seu cortejo de desumanidade e a sua tendência para uma bestialidade crescente. Prevejo a barbárie."
O padre Ernesto aproxima-se da biblioteca e tira dois livros de uma das estantes: El enigma de las brujas, de Frei Leopoldo Santos e Las huestes de Satán, de Ezequiel Bautista. Leva-os até à secretária e procura no primeiro os processos de feitiçaria correspondentes à zona de Carcassonne, Toulouse, entre 1330 e 1340. Se bem se recorda o sacerdote, várias das feiticeiras capturadas expõem ali nas suas declarações o triunfo certo de Satanás e o seu reinado definitivo sobre o planeta. Com efeito, no capítulo IV, Frei Leopoldo Santos transcreve páginas inteiras dos documentos originais. Examinando as linhas com uma atenção exagerada, o padre Ernesto encontra finalmente um dos parágrafos desejados:

Ana Maria de Georgel manifestou em seguida que, durante o longo decurso dos anos passados desde a sua possessão até ao seu encarceramento, nunca deixou de praticar o mal e de se entregar a práticas abomináveis, sem que o temor a Nosso Senhor a detivesse. Assim, cozia caldeirões, sobre um fogo maldito, ervas envenenadas, substâncias extraídas quer dos animais, quer de corpos humanos que, numa horrível profanação, ia arrancar ao repouso da terra santa dos cemitérios, para se servir deles nos seus feitiços; vadiava durante a noite em volta das forcas patibulares, quer fosse para tirar tiras das vestes dos enforcados, quer fosse para roubar a corda onde estavam pendurados, quer para se apoderar dos seus cabelos, unhas ou gordura.
Interrogada acerca do símbolo dos Apóstolos e acerca da crença que os fiéis devem à nossa Santa Religião, respondeu, como verdadeira filha de Satanás, que existia uma completa igualdade entre Deus e o Diabo, que o primeiro era rei do Céu e o segundo da Terra; que todas as almas que este acabava por seduzir estavam perdidas para o Altíssimo e que viviam eternamente na Terra, passando de um corpo para outro através dos séculos, danificando, maltratando, corrompendo e fazendo sofrer as outras almas atormentadas. Ao perguntarem onde ficava, nesse caso, o Inferno, a bruxa respondeu que a Terra e o Inferno eram uma e a mesma coisa, local de padecimento e de dor, recanto de desdita, paragem de infortúnio, recinto de desgraça e miséria.


O padre Ernesto sente as frases como navalhas, como vidros cortantes que lhe abrem o pensamento. As palavras da mulher ajustam-se na perfeição às sensações que o vêm invadindo há semanas e que o impedem de viver com tranquilidade e de desempenhar satisfatoriamente as suas funções de sacerdote. O triunfo do mal. Porque não? Não bastava uma caminhada pela cidade para nos darmos conta de que estamos a deambular entre círculos infernais? Não eram os rostos dos mendigos, dos loucos, dos solitários, dos prisioneiros, dos suicidas, dos assassinos, dos terroristas, dos esfomeados, testemunhos claros do reino das sombras? Recinto de desgraça e de miséria. Sim, era assim, sem dúvida.
(...)
Dirige-se para o centro da cidade com a cabeça a transbordar de ideias, pensativo, sem se aperceber das pessoas e dos carros que se misturam à sua volta numa desordem inexplicável. O triunfo do mal. Porque não? A destruição do planeta, o capitalismo selvagem, a xenofobia acelerada... Mesmo pensando nos próprios dignitários da Igreja que tentaram extirpar os sabat e os vínculos demoníacos de uma sociedade sufocada e em crise permanente, a hipótese de uma maldade crescente confirmava-se. Porque a Inquisição e o Santo Ofício o que foram, senão organizações criminosas e assassinas? Potros de tortura, ferragens, cordas, facas e máquinas abomináveis eram as provas irrefutáveis de uma Igreja doente e delirante que continuava a promover e acrueldade e a violência no interesse de uma moralidade inexistente. Uma Igreja cuja misoginia saltava à vista quando decretava que "por um homem, dez mil mulheres", referindo-se ao facto de, por cada varão que tiveram de sacrificar ou torturar, assassinariam ou maltratariam dez mil mulheres. Porquê? Porque elas representavam a luxúria e a concuspiscência, eram elas que procuravam o sexo e a satisfação do corpo a todo o custo. A velha história do punhado de celibatários que têm pânico do clítoris e sonham extirpá-lo e fazê-lo desaparecer. Não havia dois bandos opostos, os bons e os maus, mas um grupo apenas cerrando fileiras em redor do ódio, da sevícia e da monstruosidade. O triunfo total e pleno da maldade. Não era uma suposição tão absurda.

(Mário Mendoza- Satanás. Edição: Temas e Debates, 2005. Fotografias de William Ropp)

segunda-feira, agosto 28, 2006

o poder das palavras

Havia-me dito que era uma pessoa quase sempre difícil de aturar. Sendo o quase uma forma de minimizar os seus defeitos; o sempre condenava-lhe as suas qualidades.

Publicado por Fernando Esteves Pinto - AQUI

Hamlet - Teatro Tapafuros


... a Fundação Cultursintra apresenta...
HAMLET

de William Shakespeare
encenação Rui Mário
música original Pedro Hilário

pelo Teatro TapaFuros
de 6 de Julho a 9 de Setembro
Quinta a Sábado: 22h Domingo: 20h

Quinta da Regaleira – Sintra
reservas - 219 106 650; 707 234 234
bilhetes à venda
Quinta Regaleira
Fnac
Lojas Viagens Abreu
«Num tabuleiro joga-se mais uma partida. Da vida? Da morte? As peças movem-se, constante movimento que para algum lugar vai, só não sabemos onde... A verdade de fazermos parte de um banquete, só não sabemos qual a parte...O príncipe amaldiçoa o momento em que sabe que nasceu para endireitar as coisas. Coragem? Destino? O jogo apenas se iniciou, o tabuleiro tem o tamanho do mundo, pequena peça do tamanho da vida. Joga-se. O resultado é invariável: volta-se ao jogo, uma e outra vez.Hamlet é o teatro que encenamos debaixo do céu, há séculos e séculos. Mais uma vez, mais um eterno jogo que jamais terminará. Convidamos pois o nosso público a juntar-se à partida, sendo peça, mais uma, para podermos jogar pela noite fora... Somos peça nesta noite sintrense, única no mundo, irrepetível em sonhos, em perguntas, em mistério. Somos ou não somos? Eis a questão. Sem xeque-mate.»
Rui Mário

domingo, agosto 27, 2006

"... o amor é um verbo impossível de conjugar, dado que o pretérito não é perfeito, o presente pouco indicativo e o futuro condicional."

António Lobo Antunes, Visão, 04/08/2005