terça-feira, fevereiro 27, 2007

“As Cozinheiras” de Carlo Goldoni

27 de Fevereiro a 3 de Março

Este espectáculo é realizado no âmbito das celebrações dos 300 Anos de nascimento de Carlo Goldoni.

Carlo Goldoni é considerado um dos maiores autores europeus de teatro e um dos escritores italianos mais conhecidos fora da Itália. Provavelmente, suas obras, junto com as de Pirandello, constituem o principal veículo de difusão da arte dramaturgica italiana através do mundo.

Encenação: José Manuel Peixoto

Teatro Municipal “Garcia de Resende” | Praça Joaquim António de Aguiar

Horário: 21h30

Informações e marcações prévias através do Tel.: 266 703 112

Email: cendrev@mail.evora.net | Site: www.evora.net/cendrev

Org.: Co-produção Centro Dramático de Évora | Teatro dos Aloés | Teatro Nacional D. Maria II


segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Prémio Vergílio Ferreira atribuído a Vasco Graça Moura

O Prémio Vergílio Ferreira, criado pela Universidade de Évora em 1997, para galardoar ensaístas e/ou romancistas de língua portuguesa, foi atribuído este ano a Vasco Graça Moura.

Ensaísta, crítico, tradutor, poeta e ficcionista, Vasco Graça Moura é um dos nomes maiores da cultura portuguesa contemporânea. O seu nome vem juntar-se, na lista dos detentores do Prémio Vergílio Ferreira, a Maria Velho da Costa, Maria Judite de Carvalho, Mia Couto, Almeida Faria, Eduardo Lourenço, Óscar Lopes, Vítor M. Aguiar e Silva, Agustina Bessa Luís, Manuel Gusmão e Fernando Guimarães.

O júri, presidido pelo Prof. José Alberto Gomes Machado (por delegação do Reitor da Universidade de Évora), integrou os Professores Isabel Allegro de Magalhães (Universidade Nova Lisboa), José Carlos Seabra Pereira (Universidade de Coimbra), Ana Clara Birrento (Universidade de Évora) e a crítica literária Dr.ª Clara Ferreira Alves.

O galardão pretende dar projecção e visibilidade às obras de ficção ou ensaio dos autores escolhidos e inclui uma componente pecuniária de cinco mil euros.

Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito de Lisboa em 1966, Vasco Graça Moura ainda chegou a exercer a profissão, para além de se ter dedicado também à política.

Publicou a sua primeira obra, "Modo Mudando", em 1963, a que se seguiram vários outros livros de poesia, ensaio, ficção, assim como uma peça de teatro ("Ronda dos Meninos Expostos", 1987), um diário ("As Circunstâncias Vividas", 1995) e as crónicas de "Papéis de Jornal" (1995).

As suas traduções de "Vita Nuova" e da "Divina Comédia", de Dante, valeram-lhe o Prémio Pessoa, em 1995.

Como é da tradição, o Prémio será entregue em cerimónia pública a realizar no dia 1 de Março, aniversário da morte de Vergílio Ferreira.

Fonte: Universidade de Évora

domingo, fevereiro 25, 2007

Óscares 2007

É esta noite e os nomeados são:

Melhor Filme

Babel (2006)

The Departed (2006)

Letters from Iwo Jima (2006)

Little Miss Sunshine (2006)

The Queen (2006)


Melhor Actor

Leonardo DiCaprio em Blood Diamond (2006)

Ryan Gosling em Half Nelson (2006)

Peter O’Toole em Venus (2006/I)

Will Smith em The Pursuit of Happyness (2006)

Forest Whitaker em The Last King of Scotland (2006)

Melhor Actriz

Penélope Cruz em Volver (2006/I)

Judi Dench em Notes on a Scandal (2006)

Helen Mirren em The Queen (2006)

Meryl Streep em The Devil Wears Prada (2006)

Kate Winslet em Little Children (2006)

Melhor Actor Secundário

Alan Arkin em Little Miss Sunshine (2006)

Jackie Earle Haley em Little Children (2006)

Djimon Hounsou em Blood Diamond (2006)

Eddie Murphy em Dreamgirls (2006)

Mark Wahlberg em The Departed (2006)

Melhor Actriz Secundária

Adriana Barraza em Babel (2006)

Cate Blanchett em Notes on a Scandal (2006)

Abigail Breslin em Little Miss Sunshine (2006)

Jennifer Hudson em Dreamgirls (2006)

Rinko Kikuchi em Babel (2006)

Melhor Realizador

Clint Eastwood por Letters from Iwo Jima (2006)

Stephen Frears por The Queen (2006)

Paul Greengrass por United 93 (2006)

Alejandro González Iñárritu por Babel (2006)

Martin Scorsese por The Departed (2006)

Melhor Argumento Original

Babel (2006): Guillermo Arriaga

Letters from Iwo Jima (2006): Iris Yamashita, Paul Haggis

Little Miss Sunshine (2006): Michael Arndt

Laberinto del Fauno, El (2006): Guillermo del Toro

The Queen (2006): Peter Morgan

Melhor Argumento Adaptado

Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan (2006): Sacha Baron Cohen, Anthony Hines, Peter Baynham, Dan Mazer, Todd Phillips

Children of Men (2006): Alfonso Cuarón, Timothy J. Sexton, David Arata, Mark Fergus, Hawk Ostby

The Departed (2006): William Monahan

Little Children (2006): Todd Field, Tom Perrotta

Notes on a Scandal (2006): Patrick Marber

Melhor Cinematografia

The Black Dahlia (2006): Vilmos Zsigmond

Children of Men (2006): Emmanuel Lubezki

The Illusionist (2006): Dick Pope

Laberinto del Fauno, El (2006): Guillermo Navarro

The Prestige (2006): Wally Pfister

Melhor Edição

Babel (2006): Douglas Crise, Stephen Mirrione

Blood Diamond (2006): Steven Rosenblum

Children of Men (2006): Alfonso Cuarón, Alex Rodríguez

The Departed (2006): Thelma Schoonmaker

United 93 (2006): Clare Douglas, Richard Pearson, Christopher Rouse

Melhor Direcção Artistica

Dreamgirls (2006): John Myhre, Nancy Haigh

The Good Shepherd (2006): Jeannine Claudia Oppewall, Gretchen Rau, Leslie E. Rollins

Laberinto del Fauno, El (2006): Eugenio Caballero, Pilar Revuelta

Pirates of the Caribbean: Dead Man’s Chest (2006): Rick Heinrichs, Cheryl Carasik

The Prestige (2006): Nathan Crowley, Julie Ochipinti

Melhor Guarda Roupa

Man cheng jin dai huang jin jia (2006): Chung Man Yee

The Devil Wears Prada (2006): Patricia Field

Dreamgirls (2006): Sharen Davis

Marie Antoinette (2006): Milena Canonero

The Queen (2006): Consolata Boyle

Melhor Banda sonora

Babel (2006): Gustavo Santaolalla

The Good German (2006): Thomas Newman

Notes on a Scandal (2006): Philip Glass

Laberinto del Fauno, El (2006): Javier Navarrete

The Queen (2006): Alexandre Desplat

Melhor Música

An Inconvenient Truth (2006): Melissa Etheridge(”I Need To Wake Up”)

Dreamgirls (2006): Henry Krieger, Scott Cutler, Anne Preven(”Listen”)

Dreamgirls (2006): Henry Krieger, Siedah Garrett(”Love You I Do”)

Cars (2006): Randy Newman(”Our Town”)

Dreamgirls (2006): Henry Krieger, Willie Reale(”Patience”)

Melhor Caracterização

Apocalypto (2006): Aldo Signoretti, Vittorio Sodano

Click (2006/I): Kazuhiro Tsuji, Bill Corso

Laberinto del Fauno, El (2006): David Martí, Montse Ribé

Melhor Sonografia

Apocalypto (2006): Kevin O’Connell, Greg P. Russell, Fernando Cámara

Blood Diamond (2006): Andy Nelson, Anna Behlmer, Ivan Sharrock

Dreamgirls (2006): Michael Minkler, Bob Beemer, Willie D. Burton

Flags of Our Fathers (2006): John T. Reitz, David E. Campbell, Gregg Rudloff, Walt Martin

Pirates of the Caribbean: Dead Man’s Chest (2006): Paul Massey, Christopher Boyes, Lee Orloff

Melhor Edição de Som

Apocalypto (2006): Sean McCormack, Kami Asgar

Blood Diamond (2006): Lon Bender

Flags of Our Fathers (2006): Alan Robert Murray, Bub Asman

Letters from Iwo Jima (2006): Alan Robert Murray

Pirates of the Caribbean: Dead Man’s Chest (2006): George Watters II, Christopher Boyes

Melhores Efeitos Especiais

Pirates of the Caribbean: Dead Man’s Chest (2006): John Knoll, Hal T. Hickel, Charles Gibson, Allen Hall

Poseidon (2006): Boyd Shermis, Kim Libreri, Chas Jarrett, John Frazier

Superman Returns (2006): Mark Stetson, Richard R. Hoover, Neil Corbould, Jon Thum

Melhor Filme Animado

Cars (2006): John Lasseter

Happy Feet (2006): George Miller

Monster House (2006): Gil Kenan

Melhor Filme de Lingua Estrangeira

Efter brylluppet (2006)(Dinamarca)

Indigènes (2006)(Algeria)

Laberinto del Fauno, El (2006)(Mexico)

Leben der Anderen, Das (2006)(Alemanha)

Water (2005)(Canada)

Melhor Documentário

Deliver Us from Evil (2006): Amy Berg, Frank Donner

An Inconvenient Truth (2006): Davis Guggenheim

Iraq in Fragments (2006): James Longley, Yahya Sinno

Jesus Camp (2006): Heidi Ewing, Rachel Grady

My Country My Country (2006): Laura Poitras, Jocelyn Glatzer

Melhor Documentário Curto

The Blood of Yingzhou District (2006): Ruby Yang, Thomas Lennon

Recycled Life (2006): Leslie Iwerks, Mike Glad

“Rehearsing a Dream”: Karen Goodman, Kirk Simon

“Two Hands”: Nathaniel Kahn, Susan Rose Behr

Melhor Curta Metragem Animada

The Danish Poet (2006): Torill Kove

Lifted (2006): Gary Rydstrom

The Little Matchgirl (2006): Roger Allers, Don Hahn

Maestro (2006): Géza M. Tóth

No Time for Nuts (2006): Chris Renaud, Mike Thurmeier

Melhor Curta Metragem de Acção

Binta y la gran idea (2004): Javier Fesser, Luis Manso

Éramos pocos (2005): Borja Cobeaga

“Helmer & Son”: Søren Pilmark, Kim Magnusson

The Saviour (2005): Peter Templeman, Stuart Parkyn

West Bank Story (2005): Ari Sandel

sábado, fevereiro 24, 2007

O Cineclube da Universidade de Évora e o Páteo do Cinema – SOIR Joaquim
António de Aguiar apresentam:

Março 2007


Quinta-feira 1
O Odor do Sangue
Mario Martone



Terça-feira 6
Ciclo A Montagem no Cinema
O Neo Realismo Italiano
Ladri di Biciclette de Vittorio De Sica



Quinta-feira 8
Escolha Mortal (The Proposition)
John Hillcoat



Terça-feira 13
Ciclo A Montagem no Cinema
A Nouvelle Vague Francesa
Pierrot Le Fou de Jean-Luc Godard



Quinta-feira 15
Os Amantes Regulares
Philippe Garrel


Terça-feira 20
Luís Pacheco - Mais um Dia de Noite
António José de Almeida



Quinta-feira 22
Body Rice
Hugo Vieira da Silva


Terça-feira 27
Waiting For Europe
Christine Ree



Quinta-feira 29
Angel A
Luc Besson



Auditório Soror Mariana | Rua Diogo Cão, 8
Horário: 21h30
Org: Cineclube da Universidade de Évora | Páteo do Cinema - SOIR Joaquim
António d´Aguiar
Apoios: Universidade de Évora | Câmara Municipal de Évora | ICAM/Ministério da
Cultura | Rede Alternativa de Exibição Cinematográfica

http://auditorio.blogspot.com/

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

E SE OS AUTORES UM DIA FIZESSEM GREVE? [Revista Autores]

Ganhou timbre de lugar-comum a afirmação segundo a qual nunca foi tão difícil como hoje ser autor, em Portugal e no estrangeiro, indepentemente da área de criação em que se intervenha. Porém, a afirmação não pode nem deve ser banalizada, sobretudo por aqueles que fizeram a opção de viver dos direitos de autor gerados pelas obras de que são titulares.

Durante décadas, as tecnologias foram o principal aliado dos autores na sempre desejada difusão das suas obras. Hoje, porém, se não tiverem o necessário enquadramento jurídico podem transformar-se, como de resto já largamente acontece, na principal fonte de atropelo dos direitos de quem cria, já que colocam nas mãos dos consumidores instrumentos que, pela sua agilidade e operacionalidade, praticamente suprimem o espaço de intervenção das estruturas que têm a seu cargo a cobrança, a gestão e a distribuição dos direitos cobrados.


A solução deste problema não está, nem pode estar, na diabolização do papel das novas tecnologias. Mas também não pode residir numa visão idílica e ingénua da função que elas desempenham. A solução deve estar na combinação de dois factores: por um lado, a criação de um quadro legislativo que abarque as novas situações na perspectiva da efectiva protecção dos criadores e, por outro lado, num trabalho de índole pedagógica que leve as gerações mais jovens a perceberem o que se encontra verdadeiramente em jogo, ficando ao abrigo da visão egoísta que pode, grosseiramente, resumir-se numa frase como esta: "Desde que eu tenha o que quero, pagando pouco ou nada, tudo está no melhor dos mundos".


Vivemos numa sociedade de consumo e de consumidores, correspondendo, nos regimes democráticos, o universo dos consumidores ao dos eleitores. De uma forma geral, o poder político não deixa de ter esse facto em conta quando é chamado a legislar. Essa perspectiva costuma triunfar em detrimento dos criadores que, participando também nos actos de sufrágio, constituem uma frágil minoria.


Porém, é essa frágil minoria que mais contribui para a definição do que é mais estável e perene na identidade cultural de um país. Portugal dedica o seu dia nacional, o 10 de Junho, não a um herói militar ou a um líder político, mas a um poeta, Luís de Camões, que talvez não tivesse morrido na miséria se o estado evolutivo da sociedade do seu tempo já tivesse permitido a conceptualização e aplicação dos princípios do direito de autor. Este facto dá que pensar, e seria bom que houvesse cada vez mais cidadãos a pensarem nele, o que, infelizmente, não acontece.


Criando, na sua fascinante multiplicidade e diversidade, a cultura que fruímos e consumimos, os autores geram riqueza espiritual e material, desde logo porque contribuem para o progresso intelectual das comunidades que integram e porque, produzindo as suas obras, lançam as bases da indústria cultural que cria postos de trabalho. Quando a defesa dos autores e das suas obras claudica, assistimos, e essa é a triste realidade presente, ao eclodir de crises que se traduzem, por exemplo, na supressão de milhares de postos de trabalho na indústria discográfica e audiovisual, com todas as consequências de natureza social e económica que daí advêm.

O empobrecimento dos autores

Um estudo recente, promovido à escala europeia (comunitária e não comunitária) pela principal sociedade de autores francesa - SACEM -, demonstra que, em 2003, mais de 90 por cento dos autores deste continente auferiam rendimentos inferiores aos salários mínimos em vigor nos seus países. Estamos assim em presença de um processo de empobrecimento e de proletarização, que se traduz numa efectiva subalternização do trabalho de criação. Falando em concreto, poderá dizer-se que é cada vez maior o número daqueles que se vêem forçados a não encarar a sua actividade criadora como principal fonte de rendimento e como base efectiva de subsistência. Quando tal acontece, perdem os autores e perdem os países de cuja vida cultural eles são o mais relevante suporte. E quando existe uma economia paralela que se alimenta dos produtos culturais mais vergonhosamente pirateados, pior se torna ainda a situação.


Em Portugal, é elevado o número de jovens criadores que pretendem, não se integrando num quadro de profissões convencional, viver das músicas que compõem, dos livros que escrevem, dos filmes que realizam, dos quadros que pintam, dos livros que ilustram, das peças que escrevem ou das coreografias que criam. Trata-se de uma realidade nova que deve ser tida na devida conta.


Mas será que há condições efectivas para os jovens cumprirem esse desígnio, num mercado exíguo e num contexto de deficiente protecção dos seus direitos enquanto criadores? Sinceramente, penso que não.


Nesse sentido, pode dizer-se que a escolha do caminho da criatividade como saída profissional é uma opção precária e de risco. Mas serão apenas o ordenamento jurídico e a pouca eficácia das instituições fiscalizadoras a contribuírem para este estado de coisas? Entendo que não, sendo também necessário mencionar o peso de uma mentalidade dominante que tende a apresentar os autores como diletantes que, em horário tardio ou em fins-de-semana prolongados, escrevem os seus livros e as suas peças de teatro ou pintam os seus quadros, apenas pelo prazer irrenunciável de terem um "hobby" e de desejarem obter público reconhecimento e aplauso através dele.


Em síntese, poderá dizer-se que a sociedade em que vivemos, tão ciosa do respeito da propriedade privada, tende a ver a obra autoral como algo que é de todos, integrando-se num espécie de domínio público ilimitado ao qual todos podem ir buscar, sem nada pagarem por isso, o que muito bem entendem, para lhe darem depois o uso que mais lhes convém.


É certo que há muitos autores, para os quais, tendo outras profissões que lhes asseguram o sustento quotidiano, a única retribuição desejável e expectável é a ampla difusão da obra. Assiste-lhes esse direito, mas impõe-se esta pergunta: então e os outros, os que querem viver daquilo que criam, exigindo a justa remuneração pelas obras que fazem nascer? Se não a obtiverem sob a forma de direito de autor, dificilmente podem canalizar plenamente as suas energias para o trabalho de criação.


De uma forma geral, o público é pouco sensível à importância do trabalho dos autores para o progresso da vida cultural de um país. Esta situação torna-se ainda mais grave e preocupante num país como Portugal onde a prática cidadã é quase inexistente.


De uma forma geral, ninguém discute a justa remuneração de um electricista, de um canalizador, de um dentista ou de um mecânico de automóveis, mas quase todos parecem estar interessados em discutir a remuneração devida aos autores e salvaguardada pela lei, talvez porque, de forma sistemática, tem vindo a ser incutida no público a enganadora ideia de que, afinal, somos todos autores e artistas. O grosso da programação televisiva tem contribuído amplamente para que se propague essa ilusão, com os resultados que se tornaram patentes.


Por tudo isto é imperioso apostar no lançamento de campanhas como as que se encontram em curso na Alemanha, em França ou nos Estados Unidos, cujo objectivo é implantar na escola o conceito de criatividade, levando as crianças, os jovens e os docentes a interiorizarem a ideia de que é ali, naquele espaço de transmissão e partilha de saberes, que urge lançar as bases do reconhecimento do autor, entendido e respeitado como alguém que, usando a imaginação criadora, é capaz de acrescentar beleza à nossa vida de todos os dias e de problematizar de forma desafiadora e crítica a própria visão do mundo.

Aos autores o que é dos autores

A Sociedade Portuguesa de Autores lançou esse desafio ao Ministério da Educação, sob a forma de uma campanha a desenvolver nas escolas com a designação genérica de "O Autor na Escola". É aí que se ganham ou se perdem as batalhas que envolvem os tempos por vir.


Um país que trata mal os seus criadores, desde a protecção dos seus direitos até aos benefícios fiscais que, levando em conta fenómenos como a sazonalidade, podem converter-se em incentivo à criação, é um país ainda mais pobre do que pode imaginar-se.


Uma boa parte da legislação que enquadra o trabalho criador dos autores é produzida em Bruxelas, onde tende a imperar uma visão neo-liberal e mercantilista destas matérias, evidenciando a tentação de confundir obra com mercadoria. A transposição para o ordenamento jurídico nacional das directivas provenientes da União Europeia nem sempre tem ido no sentido mais correcto, pela morosidade ou pelo excesso de situações de excepção contempladas. Também aí há passos importantes e urgentes a dar, embora se saiba que a harmonização da realidade comunitária com a nacional nem sempre é fácil e pacífica.


Por outro lado, devem os autores e aqueles que os representam usar estratégias e linguagens que ajudem os não iniciados a perceber onde está a razão, não os excluindo de um debate em que eles deverão ser parte activa. A retórica tecnicista e demasiado codificada, ainda que em defesa de posições justas e amplamente defensáveis, exclui muito mais do que integra.


De facto, nunca foi tão difícil ser autor, em Portugal e no estrangeiro, e se, por hipótese ainda que absurda, os autores de todo o mundo um dia decidissem fazer greve como legítima forma de protesto, talvez os fruidores das suas obras, genericamente identificados como consumidores, percebessem que ficavam infinitamente mais pobres com esse magoado silêncio. Esperemos que esse dia não chegue nunca, a não ser num puro cenário ficcional imaginado por um autor inspirado, talvez com o título "O Dia em Que Ninguém Criou Nada".

in Revista Autores, Dezembro de 2006

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Maria Belo - Filhos da Mãe


"Os portugueses comportam-se como povo que teve mãe, mas é órfão de pai (...) E esta explicação poderia ter desenvolvimento psicanalítico."
(António José Saraiva)
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Este é o ponto de partida da tese de doutoramento de Maria Belo, publicado agora em livro pela Edeline, com o título Filhos da Mãe. A apresentação foi efectuada ontem, 6 de Fevereiro, pelo dr.º Mário Soares na Fundação Mário Soares.
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Maria Belo, entre várias actividades profissionais, foi deputada no Parlamento Europeu e é psicanalista co-fundadora do Centro Português de Psicanálise.
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A sua tese versa sobre uma marca estrutural do povo português, um cunho característico do que é a portuguesidade em si mesma, com as suas vantagens e desvantagens, algo que se poderia designar como sendo da ordem da "ausência do pai", ausência esta, diria eu, que nos atravessa transversalmente desde o nascimento da Portugal, com D. Afonso Henriques, passando pela partida dos homens para os "Descobrimentos" e pela emigração clandestina durante a ditadura salazarista. É sobre a singularidade desta ausência, sob o ponto de vista psicanalítico entre outros, que fica consignada uma tese com um valor absolutamente original e indelével e uma referência importantíssima para quem reflecte sobre a estrutura da cultura portuguesa.
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"A minha reflexão levou-me à convicção de que a cultura portuguesa apresenta dois aspectos sintomáticos, contraditórios na aparência, mas quão irmãos na lógica do inconsciente. Por um lado a presença, no imaginário colectivo, no simbólico, na obra cultural, nas falas sociais e políticas, do passado que eu chamaria 'patriótico': a história do país e da comunidade nacional, a sua antiguidade, os homens e os seus feitos. Como se se tratasse de um objecto primitivo que fosse necessário imaginar e simbolizar sem descanso, a cada instante, a fim de que o país e cada um de nós seja real, não se perca, não se desfaça. Objecto patriótico que existiu, que se conta sem cessar, que está nos livros, de que ninguém parece duvidar.
Por outro lado, agarramo-nos tenazmente a esse objecto da primeira infância (em Portugal especialmente marcante) perdido para sempre, que cada português sabe que nunca reencontrará, que nunca voltará para nos libertar da sua obsessão, que nos impede de viver (...)" - mas que - "por vezes, retorna. Mas não o reconhecemos. É irreconhecível para o consciente. (...)
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Como se quem tivesse partido não fossem os homens, mas algo de essencial com eles, esse objecto primitivo feito em seguida objecto patriótico. Como se a percepção inicial do pai real, o pai da estrutura, fosse a de um objecto perdido com o qual não temos relação, desde sempre e definitivamente Outro. Como se essa percepção da perda desse 'intimo-estranho', das Unheimlich que caracteriza para os humanos o pai real, fosse duplicado pela ausência física e simbólica do pai. E não restasse senão um pai imaginário e todo poderoso."
(Maria Belo - Filhos da Mãe)

terça-feira, fevereiro 06, 2007

"The Burning Halo"

Já lhe fiz menção no "Corvus Café" e hoje repito a intenção aqui:
"The Burning Halo" é o mais recente título dos Suecos “Draconian”, o qual viu o seu lançamento na maior parte dos países da Europa em Outubro e que infelizmente (e como vem sendo hábito), Portugal apenas o abraçou já em Dezembro.
8 temas do mais apurado Doom Metal, dos quais apenas 3 são realmente originais. Destaco as curiosidades de duas covers em particular: tema original de 1970 - “On Sunday They Will Kill the World” dos “Ekseption” e “Forever My Queen” datado de 1972, pertencente aos “of Pentagram”.
O álbum inicia-se com “She Dies”, um dos temas mais bonitos que já ouvi no género Doom, evidenciando este de alguma forma a continuidade da obra-prima anterior “Arcane Rain Fell”, ressurgindo-nos o poeta e vocalista Anders Jacobsson e a fantástica Lisa Johansson, no seu melhor.
Este é obrigatoriamente um álbum musical para fãs de Doom-Metal, apesar de o considerar uma obra poética, demarcada por muita melancolia e profunda emoção fatalista.
Em suma, é quanto a mim, uma das melhores obras musicais do género, sendo por isso mesmo e muito naturalmente a minha mais efusiva recomendação.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Fundação de Serralves

ANOS 80: UMA TOPOLOGIA

11 Nov 2006 - 25 Mar 2007 - Museu

Parte do interesse em revisitar os anos 80 resulta de que muita da arte de hoje reflecte esse legado, embora negando ou ignorando esse passado. Reconsiderar os anos 80 pode servir como ferramenta para destacar e reflectir sobre alguma da arte do presente. Esta será uma exposição de grandes dimensões que utilizará todos os espaços do Museu, reunindo pela primeira vez em Portugal um conjunto muito significativo de obras fundamentais de uma década que também enquadrou a abertura internacional da arte portuguesa, se bem que essas mesmas obras só agora sejam vistas pela primeira vez no país.

Comissariado: Ulrich Loock, Sandra Guimarães
Produção: Fundação de Serralves

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Tell Tale Heart Animation



The Tell-Tale Heart is a wonderful animated short film of 1953 based on Edgar Allan Poe short-story. The story told by a mad man has a dark visual with a perfect work of narration by James Mason. It is a UPA Production and was the first cartoon to be X-rated (adults only) in Great Britain under the British Board of Film Censors classification system. Really great - you have to see it.

sábado, janeiro 27, 2007

Exposição, na Galeria de S. Bento, de litografias de Paula Rego



Exposição de gravuras e de litografias, algumas intervencionadas, da artista Paula Rego. Trata-se de um poderoso e expressivo conjunto inspirado no mais célebre romance, Jane Eyre (1847), da escritora inglesa Charlotte Bronte (1816-1855).


«No trabalho de Paula Rego, na sua terra de sonhos, artística, o estranho e o onírico evoluem e mudam de forma com uma vitalidade rebelde que lhes é comum. E fazem-no pela mesma razão que o faziam com Jane Eyre, reflectindo o trabalho de Charlotte Bronte mais de cento e cinquenta anos depois. Numa miríade de diferentes sequências de imagens, Rego explorou as condições da sua própria educação em Portugal, a sua formação como rapariga e mulher e a oscilação entre as sufocantes exigências sociais e os estratagemas libertadores femininos». Marina Warner

De: 22-01-2007 a 02-03-2007
Preço Entrada: Entrada Livre
Horários: 2ª,3ª,4ª,5ª,6ª
Artista(s): Paula Rego
Endereço: Rua do Machadinho 1, 1249-023 LISBOA
Concelho: Lisboa
Distrito: Lisboa
Telefone: 213974325

Aeroporto de Beja é baixo investimento para grande benefício segundo Sócrates


O primeiro-ministro, José Sócrates, considerou hoje um "baixo investimento para um grande benefício" a construção do aeroporto de Beja, operacional em 2008, um projecto estruturante para o Alentejo interligado com o Porto de Sines e Alqueva.


Fonte: Lusa

Campeonato Nacional da Língua Portuguesa


Pelo terceiro ano consecutivo, o Campeonato Nacional da Língua Portuguesa propõe uma incursão entusiasmante pelo mundo da Língua, incentivando os participantes a testarem os seus conhecimentos de Português num ambiente lúdico, mas nem por isso menos competitivo. As duas edições anteriores contaram com a participação de uma media de 15.000 concorrentes que motivaram um aceso despique.

Com o patrocínio do BPI, O Expresso, o Jornal de Letras, SIC e a SIC Notícias juntam-se uma vez mais para lançarem o repto da boa utilização daquele que é o nosso instrumento principal de relacionamento social e uma das ferramentas mais decisivas para nos identificarmos enquanto povo e nação.

O Júri deste Campeonato, presidido por Francisco Pinto Balsemão (Presidente do Grupo Impresa) e vice-presidido por Artur Santos Silva (Presidente do Conselho de Administração do BPI), é composto por uma Comissão de Honra, uma Comissão Consultiva e uma Comissão Técnico-científica.

De Fevereiro a Abril – primeiro através dos vários testes que seleccionam os 200 concorrentes que vão poder participar na Grande Final no dia 28 de Abril, depois nesse momento que se vem revelando quase mágico para muitos dos intervenientes – os portugueses (e todos quantos desejarem, desde que dominem suficientemente a Língua Portuguesa), de quaisquer idades, vão poder comprovar os seus conhecimentos da língua pátria, confraternizar e polemizar tendo como pólos de atenção as perguntas com que serão confrontados.

Com o objectivo de atrair mais participantes, decidimos nesta edição incluir a possibilidade das respostas aos testes do Campeonato serem dadas através da Internet num sítio web criado especificamente para o efeito em www.linguaportuguesa.aeiou.pt.

Criamos também uma nova mecânica de jogadas que poderão processar-se ao longo de três etapas, e pela primeira vez desenvolveremos um Campeonato especial ESCOLAS.


ESPECIAL ESCOLAS

Na edição de 2007 e com o apoio da Porto Editora haverá uma competição, «Especial Escolas», em que poderão concorrer todos os alunos desde que inscritos através de um professor.

Para terem acesso ao teste «Especial Escolas», os professores interessados em participar com os seus alunos devem efectuar o seu registo até ao dia 16 de Fevereiro em www.linguaportuguesa.aeiou.pt.

Os professores depois de registados receberão uma palavra-chave que lhes possibilitará descarregar, gratuitamente, o teste para os seus alunos.

Terão acesso à Grande Final 50 concorrentes de entre os participantes neste concurso especialmente destinado a estudantes inscritos através dos professores.
De agora até esse aguardado dia 28 de Abril, quando tudo se consumar nas instalações do Centro Cultural de Belém, as artimanhas da gramática e a riqueza do nosso vocabulário animarão o Campeonato Nacional da Língua Portuguesa!

A Organização.

Fonte: www.portoeditora.pt

quarta-feira, janeiro 24, 2007

sábado, janeiro 20, 2007

Associação Portuguesa Contra a Leucemia

Será mais um concerto inesquecível já no próximo dia 25 de Janeiro no Pavilhão Atlântico.

Seja solidário com os doentes de leucemia.

Os bilhetes estão à venda nos canais habituais, , El Corte Inglês, Fnac, Agência ABEP, Casa Viola, ACP, Pavilhão Atlântico, www.plateia.pt


segunda-feira, janeiro 15, 2007


19 de Janeiro a 18 de Março 2007
De terça a domingo, das 10:00 às 19:00.
Última entrada às 18:15

| Galeria 3 - Piso 2

A terceira edição deste prémio anual integra dois momentos: a exposição colectiva de obras dos quatro fotógrafos seleccionados; e a atribuição de um prémio no valor de 15 mil euros ao artista vencedor.
Os artistas convidados para a exposição BESPhoto 2006 são Augusto Alves da Silva, Daniel Blaufuks, Susanne Themlitz e Vasco Araújo, que na opinião do Júri de Selecção - Maria do Carmo Serin, Lúcia Marques, Filipa Valadares, Filipa Oliveira e Jurgen Bock - realizaram entre 1 de Julho de 2005 e 30 de Junho de 2006 as mostras de maior interesse no âmbito da fotografia portuguesa actual.
O Júri decidirá a quem atribuir o Prémio BESPhoto 2006, após a apreciação dos trabalhos expostos, alguns criados especialmente para esta ocasião.
Os vencedores da primeira e segunda edições deste prémio, cujas exposições decorreram também no CCB, foram Helena Almeida e José Luís Neto, respectivamente.
Local e fonte: CCB

“O Eunuco de Inês de Castro” de Armando Nascimento Rosa

18 de Janeiro a 8 de Fevereiro (reposição)

Encenação: Paulo Lages | Elenco: Álvaro Corte Real | Isabel Bilou | Jorge Baião | José Russo | Maria Marrafa

Teatro Municipal “Garcia de Resende” | Praça Joaquim António de Aguiar

Horário: 21h30

Informações e marcações prévias através do Tel.: 266 703 112

Email: cendrev@mail.evora.net | Site: www.evora.net/cendrev

Org.: Centro Dramático de Évora

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Arte Contemporânea

CHIADO 8 - Exposição de José Loureiro - 15 de Janeiro / 23 de Março 2007

A partir de segunda-feira, dia 15 de Janeiro, das 12h às 20h, poderá ver a exposição de José Loureiro.

José Loureiro é um pintor com um percurso tão sólido e singular quanto discreto. Nesta exposição José Loureiro apresenta uma série de pinturas de pequeno formato. Abstractas, algumas com traços quase horizontais, parecem à partida concordar com os pressupostos modernistas, que definiam a validez da pintura consoante o grau de manifestação da sua geometria interna.

Largo do Chiado, 8 Lisboa



quinta-feira, janeiro 11, 2007


Cinema: "Paris, Je T'Aime"



Filme Paris, Je T'Aime (Olivier Assayas; 2005)

11 de Janeiro de 2007, pelas 21h30, no Auditório Soror Mariana.

Sinopse: Conhecida como ''a cidade do amor'', Paris é o cenário de 20 histórias contadas por 20 directores de diferentes países. A pluralidade não está apenas nas distintas visões sobre a mesma e mítica locação, mas também na forma e estilo de cada cineasta - que tem aqui apenas cinco minutos para imprimir as suas impressões sobre a atmosfera parisiense.

Organização: SOIR Joaquim António d'Aguiar e Cineclube da Universidade de Évora

Apoios: Universidade de Évora, Câmara Municipal de Évora, ICAM/Ministério da Cultura, Rede Alternativa de Exibição Cinematográfica

Informações e Contatos:

Cineclube da Universidade de Évora

Rua Diogo Cão, 8 7000-872 Évora

Tel.: 266 703 137 Fax: 266 703 137

Email: cineclube@uevora.pt

www.cineclube.uevora.pt

Local: 21:30 | Auditório Soror Mariana


terça-feira, janeiro 09, 2007

Maria Antónia Lima
Foto: cedida pela autora do texto

Give Literature a Chance

A Literatura e outras áreas ligadas às Humanidades como espécies em vias de extinção e a sua sobrevivência na formação inicial do Ensino Superior. Problemas, propostas e desafios, são assunto no texto de Maria Antónia Lima, que o UELINE e o Cultura publicam.


Give Literature a Chance


Talvez somente a melodia utópica da famosa canção de John Lennon, Give Peace a Chance, nos possa hoje servir de acompanhamento e inspiração na defesa de uma área de estudos em vias de perigosa e inaceitável extinção, como é aliás o caso de uma série de outras áreas disciplinares afectas às Humanidades, que inexplicavelmente se tornaram alvo fácil de caçadores furtivos, que desejam certamente permanecer ocultos por detrás de cerradas sebes donde nascem certas medidas reformistas, que teimam em crescer desordenadamente num emaranhado por vezes caótico que impede a visão e confunde o pensamento.

Com uma tão antiga e prestigiada área de arquitectura paisagista e de outras áreas científicas que promovem o equilíbrio ambiental e preservam o património natural, talvez a Universidade de Évora devesse dar o seu contributo na defesa do equilíbrio das espécies que, no seu caso, são constituídas pelo conjunto das suas próprias áreas científicas dando, ao país e ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, um bom exemplo na defesa desse património cultural e intelectual, que actualmente se encontra em risco de sobrevivência. O facto de possuirmos um Reitor especialmente vocacionado, pela sua formação científica, para a protecção de espécies em extinção, leva-nos a acreditar que este seu adequado perfil o tornará sensível a este apelo.

Como se sabe, proteger, hoje em dia, a Literatura ou qualquer área das Ciências Humanas, não é tarefa fácil, pois como acontece com outras formas de existência em perigo, esta área de estudos sobrevive actualmente com muita dificuldade e ainda sobreviverá pior com a campanha de má publicidade que alguns responsáveis e muitos órgãos de informação têm desenvolvido, repetindo até à exaustão a ideia de que se deverá acabar com cursos que não promovam emprego, ou que não produzam postos de trabalho. Admitindo até que tenham dados exactos que lhes garantam esta difícil distinção, no actual negro cenário da empregabilidade, esquecem-se, todavia, essas vozes que não é a Universidade quem promove esta oferta de emprego e que às empresas e à sociedade se devem igualmente pedir reformas, alterações de mentalidade e adaptações à mudança dos tempos, que noutros países mais avançados tem exigido, por exemplo, que se contratem licenciados em Filosofia e noutros cursos de Ciências Humanas, para diversos lugares e até para os conselhos administrativos de importantes empresas. A adesão à Declaração de Bolonha também exige saber se, nos restantes países da Europa, se encerram departamentos de Humanidades, com a justificação de não promoverem emprego. Pelo que sabemos todos eles continuam em funcionamento, porque a mentalidade dos alunos que os procuram não se baseia em utilitarismos de vistas curtas, mas antes se orienta pelos seus mais essenciais desejos de formação e de vocação.

Em Portugal, tudo se rege pela lei do mais forte e do mais expedito, justificando assim a inexistência de eficazes sistemas de protecção. Com o ensino da Literatura não podia ser diferente. Trata-se de aplicar os princípios da lei da sobrevivência a uma área científica que desde tempos imemoriais tem sido protegida não por motivos diletantes, mas exactamente com o objectivo de que todo o ecossistema do conhecimento humano permaneça em equilíbrio. Sem a sua presença nas Universidades, depressa estas se tornariam lugares inóspitos dominados pelas espécies de conhecimento mais robustas, que mais utilidade produzem e que mais se reproduzem. Os que não servem para nada, no sentido malthusiano e utilitarista, mas que são tudo num sentido existencial mais profundo, são actualmente considerados inúteis, porque incapazes de reprodução estando assim inevitavelmente condenados ao desaparecimento, como um simples louva-a-deus que, após cumprir a sua missão reprodutiva, é despedido do reino animal, sem subsídio de desemprego nem reforma garantida, restando-lhe apenas a simples aniquilação, que, no entanto, mantém a sobrevivência da espécie. Esta condenação mostra bem a crueldade de que a Natureza é capaz para se auto-regular, sendo totalmente absurdo que a reforma do Ensino Superior lhe imite os seus procedimentos, impedindo o direito à existência de certas áreas, que desempenham e devem continuar a desempenhar um papel imprescindível no sistema educativo. Que as formigas, os louva-a-deus e os pirilampos não se insurjam contra o destino cruel que a Natureza lhes deu, ainda se pode compreender, mas o que será totalmente incompreensível é que o homem, ser racional habituado a dominar a Natureza até limites do aceitável, se submeta agora a argumentos tão primitivos e inspirados nas leis mais elementares que o seu conhecimento científico sempre lhe tem permitido contrariar, sendo igualmente inadmissível que no séc. XXI se raciocine de acordo com princípios científicos do séc. XIX. Num tempo em que princípios de inteligência emocional, e não de darwinismo utilitário, orientam as mentes mais interessantes e, por isso, mais úteis da nossa cultura, exige-se que os espíritos responsáveis pelas actuais reformas no Ensino Superior se orientem também pela necessidade de proceder a uma combinação entre o científico e o artístico, para que de futuro a frieza do raciocínio possa, de facto, ser temperada pelo calor da intuição e da emoção.

Para atingir este objectivo, uma medida se nos afigura urgente. Seguindo o bom exemplo de algumas das melhores universidades internacionais de referência, um número determinado de opções do 1º ciclo dos cursos de Ciências Exactas e Naturais deveria ser destinado às Ciências Humanas e Artes, devendo ser obrigatório que uma dessas opções fosse a Literatura, podendo o aluno optar entre várias literaturas de diferentes nacionalidades e de diferentes temáticas . Penso que seria a melhor forma de provar, como o demonstrou Nabokov, nas suas aulas de Literatura, que esta "não nasceu quando um rapaz a gritar «Lobo! Lobo!» saiu a correr do vale de Neanderthal com um grande lobo na sua peugada: a literatura nasceu quando um rapaz apareceu a gritar «Lobo! Lobo!» e não havia lobo nenhum a persegui-lo. O facto de o pobre diabo, porque mentiu demasiadas vezes, ter acabado por ser comido por uma fera verdadeira é perfeitamente acidental. Mas eis o que é importante. Entre o lobo no meio do capim e o lobo no conto há um difuso mediador. Esse mediador, esse prisma, é a arte da literatura." Nestes termos, a Literatura inventa a Natureza, porque a conhece demasiado bem e a respeita nos seus maiores perigos. Ela inventa-a, e todo aquele que não experimentar o contacto com a Literatura ficará para sempre privado de desenvolver as suas faculdades de invenção e imaginação de que a própria criatividade científica tanto depende, para entender esse mesmo mundo natural.

A Literatura tem demasiada consciência não só da beleza da Natureza, mas também da sua crueldade, para ignorar a força das suas terríveis leis. É exactamente nos momentos, em que essas leis mais põem em perigo a sua existência, que ela deve mostrar o seu maior valor e utilidade. Deve estar atenta às deslumbrantes cores protectoras das borboletas e das aves, para não ignorar o sofisticado sistema de feitiços e astúcias da Natureza. Deve-se inspirar nos seus truques de ilusionismo, para não se tornar vítima dessa ilusão.

Não nos deixemos, pois, enganar pela Natureza e pelas suas inevitáveis leis de extinção. Deixemos que a Literatura nos sirva para as contrariar no que elas têm de mais radical e definitivo. Alcancemos, através dela, o poder de reagir contra a morte ou contra toda e qualquer forma de aniquilamento, garantindo não só a nossa simples sobrevivência, mas muito especialmente a defesa da imortalidade do espírito humano. E se, depois de tudo isto, alguém ainda duvidar da utilidade da Literatura, não nos responsabilizamos pelo seu provável regresso ao Neanderthal e à sã convivência com lobos, que este retorno às origens decerto lhe proporcionará.


Maria Antónia Lima, Departamento de Linguística e Literaturas da Universidade de Évora

2007-01-09 - Maria Antónia Lima