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sexta-feira, dezembro 14, 2007

Entrevista ao escritor Hugo Villier

Hugo Villier ou Hugo Israel, 28 anos, TV producer da Euro RSCG, vai lançar amanhã o livro de poesia “Amor ah tona”. O lançamento irá decorrer num evento colectivo, com animação e apresentação de projectos musicais.” O coração da capa é uma obra da Joana Vasconcelos, que simboliza a tristeza que trespassa o coração”, explicou o autor ao M&P. O preço de capa do livro, editado pela Corpos Editora, é 16 euros.
Hugo Israel trabalha na Euro RSCG desde 2001. Antes disso foi produtor do Hora Viva um programa em directo na RTP 1, teve um atelier de pintura durante dois anos, e, paralelamente, entrou numa ópera no casino Estoril. “Com este livro espero abrir algumas portas também, para que consiga escrever critica de bailado, actividade que também tenho seguido de perto”, comenta Hugo Israel.

in Meios & Publicidade

Breve Entrevista:

sandra martins – Qual é/ foi o seu percurso académico? O que lhe ocupa, actualmente, a maior parte do tempo?

Hugo Villier – Foi um percurso multidisciplinar, com formação na area da comunicação estratégica e comunicação multimédia, a minha principal ocupação é mesmo a publicidade, deixa-me com pouco tempo para outras actividades mas dá-me tanto tanto prazer que sem ela viveria concerteza com menos adrenalina, preciso do sal da publicidade para ter cristais à minha volta.

s.m. Quando começou a escrever?


H.V. Comecei a escrever com 13 anos, em retalhos de papel soltos, sobre a natureza e os elementos, era como...hum... com as palavras tudo é mais fácil.

s.m. “Amor Ah Tona” é o seu 1º livro de poesia, como surgiu este título? E a imagem de capa?

H.V. O titulo surgiu sob a influência do mar, manter o corpo sempre estável à superficie do mar, estar concentrado até sentir o momento certo, o impulso energético é brutal, daí mar ah tona, a paixão pela obra da Joana Vasconcelos foi surpreendentemente ah tona de um olhar, e as peças encaixaram na perfeição criando uma praia imaginária onde o coração é o sol e as palavras o mar.

s.m. Fale-nos um pouco deste livro para aguçar a curiosidade aos nossos leitores.

H.V. É um livro que transmite emoções de sufoco em forma de fogo de artifício libertando amor. É o amor e a gratidão eterna.

s.m. Qual é a sensação de ver o seu primeiro livro publicado? Trouxe mudanças? Quais as suas expectativas?

H.V.É uma sensação corrosiva (risos), mas que me deixa muito feliz e tranquilo.

As expectativas são sempre sinal de mudança, mudar é aprender de novo, re aprender, re criar, é a fenix renascida, renasce-se sempre mais forte.

s.m. Em termos literários, acredita no termo "Inspiração", no termo "Transpiração" ou na sua simbiose?

H.V. Bem...é uma fusão virtual, é como a saudade e o coração, como canta Caetano Veloso “ ...saudade até que é bom...melhor do que caminhar sozinho...”

s.m. Teve formação em Escrita Criativa? O que pensa desta disciplina?

H.V. Em publicidade a escrita criativa é permanente, é uma das disciplinas mais importantes do mundo actual, vivemos num país com uma taxa elevada de iletracia, a taxa de abandono escolar é das mais altas da europa, é importante ensinar o pensamento criativo, mas saber escrever é fundamental.

s.m. Como caracteriza o seu processo de escrita?

H.V. É um processo biológico, que é provocado muitas vezes pela heresia social e relações humanas, não diria sazonal mas é uma actividade que exige uma concentração e criatividade que não aparecem quando se quer, é mais interior, sentido.

s.m. O seu livro foi editado pela Corpos Editora. Como está a decorrer o processo?

H.V. O processo está a decorrer desde Julho deste ano, tem dado para saborear cada momento, é uma editora que tem revelado um excelente trabalho na divulgação de jovens escritores na área da prosa e poesia, é uma editora cheia de energia que agita a cultura e promove projectos que se fundem e interligam, como a musica imagem e palavras.

s.m. Trabalha na Euro RSCG desde 2001, já foi produtor do “Hora Viva” na RTP1, teve um atelier de pintura durante dois anos, e participou numa ópera no Casino Estoril. Como consegue conciliar tantas paixões diferentes e existirá uma relação com a escrita, nomeadamente com o livro de poesia que vai ser lançado dia 15?

H.V. Lembro-me desde miúdo gostar da polivalência cultural, sempre tive uma aptidão biológica para construir mundos paralelos , e com eles criar uma vibração muito própria.

Grande parte das minhas aspirações infantis têm revelado uma certeza no agora, porque as sigo passo e passo e trazem-me uma satisfação constante, a globalização revela isso mesmo abranger o mais possível, desfrutando da melhor maneira com o maximo conforto.

s.m. Que autores lê frequentemente?

H.V. Gosto de variar nos géneros e nos autores, gosto de dividir o ano por fases literárias, gosto bastante da E. Annie Proulx, tem o poder da transformação, cria imagens e bonecos lindos, as palavras valem ouro, acho-a incrível.

s.m. Qual foi, até hoje, o(s) livro(s) e/ ou autor(es) que mais o marcaram? Porquê?

H.V. Rilke e Virginia Wolf são dos autores que mais marcaram a minha experiência de vida, pela dignidade que empregam em cada palavra, viveram processos de escrita vizinhos ao amor e à psicanálise, Rilke iniciou um novo ciclo na literatura poética alemã, atraiu muitos novos escritores influenciando-os pelo seu lirismo à semelhança da V. Wolf que liderou o movimento modernista em Londres, influenciando muitos jovens escritores.

s.m. O que nos reserva para um futuro próximo, em termos de criação literária?

H.V. Amor ah tona será ouvido num formato audio cd, é um projecto criativo que irá reunir varios artistas no âmbito musical alternativo.

s.m. Que conselho daria a quem sonha melhorar o seu processo de escrita e, por fim, publicar as suas palavras?

H.V. Guardar tudo, compilar, ler e reler, dar a ler e procurar uma editora.

Para melhorar, escolher bem os autores e ler e ler.

s.m. Para finalizar esta breve entrevista informal peço-lhe que escolha um dos poemas do seu livro para que os nossos leitores tenham uma antevisão do que podem esperar ao adquirir “Amor Ah Tona” já a partir de dia 15.

A solidão lá vai no meio da escuridão efémera do destino.

Traz-me a imagem da hipérbole mais real dos meus sonhos.

A alvorada saúda-me com as gotas de orvalho que a tua boca

Docemente me oferece.

Eu levito, mas vou caminhando pelas pedras da vida à procura do pôr do sol.

E quando estou a chegar vejo sempre mil e uma montanhas

Para escalar.

As minhas mãos sangram, os pés não têm força

Mas a luta é conquista que se torna num respirar eterno.



Ouça alguns excertos do livro AQUI


Cartaz de Apresentação da Corpos Editora:

domingo, setembro 30, 2007

Ana Ferreira


Entrevista à escritora Ana Ferreira (Livro de Prosa Poética - Coisas de Nada)

sandra martins - É um imenso prazer poder contar com as suas palavras aqui no nosso Blogue. Esperamos que com estas questões os nossos leitores a possam vir a conhecer melhor e, quem sabe, para quem ainda não a leu, despertar o interesse para o seu trabalho literário.

Que idade tem? Qual é/ foi o seu percurso académico? Qual é a sua profissão?

A.F. Olá a todos! Tenho 46 anos, actualmente trabalho na área de atendimento de um organismo privado de utilidade pública e acabo em Novembro deste ano o Curso Superior de Psicologia do Ismai, assim que entregar o projecto final de Curso.

s.m. Quando começou a escrever?

A.F. Penso que pouco depois de aprender a ler, isto é, quase desde sempre. A minha forma de expressão sempre passou pela escrita e pelo desenho.

s.m. Além do livro que apresentamos hoje aqui no Cultura já publicou e/ ou publica, actualmente, noutros suportes? (Quais?)

A.F. Em termos de livros publicados, Coisas de Nada é o primeiro.

Anteriormente publiquei contos e crónicas no Jornal de Notícias e em algumas revistas dispersas. Colaborei da mesma forma com a revista Saúdinha, editada em tempos pela Administração Regional de Saúde – Norte.

s.m. Actualmente a Internet é uma importante ferramenta na divulgação de todo o tipo de arte. O que pensa deste mundo? Aderiu ao mundo dos blogues. Alguma razão em particular?

A.F. É um mundo curioso e apetecível, na medida em que possibilita o livre acesso às mais diversas formas de pensar sem que nos obrigue a parar e aderir instantaneamente aqui ou ali. Alguns dizem que escrevem para o ciber espaço porque querem ser lidos e ouvidos por quem quer que passe, outros afirmam que o prazer está em escrever para si próprio, como se de outro se tratasse, um querido diário lançado livremente para o espaço, sempre com a possibilidade de resgatar os conteúdos, revisitar a publicação, barbeirar um ou outro adjectivo, de um modo não possível em qualquer outra publicação.

s.m. Com certeza já terá recebido boas críticas em relação ao seu trabalho literário. Como se sente perante as palavras dos seus leitores e críticos?

A.F. Tenho recebido críticas excelentes e confesso que não estava à espera, pelo menos em termos da quantidade de boas opiniões, bons sentimentos àcerca desta minha escrita. Como me sinto? Mais completa ;)

E particularmente feliz quando os leitores fazem a apreciação dos meus textos pelo lado que eu pretendi que apreendessem: uma escrita tornada simples de onde se libertem diversos níveis de leitura e expressão.

s.m. Qual foi a sensação de ver o seu primeiro livro publicado? Trouxe mudanças na sua vida?


A.F. :) O grande, enorme entusiasmo, foi durante a preparação: a concretização de um sonho de muito tempo, todos os preparativos que me aproximaram passo a passo de um desejo antigo... foi muito bom. Quanto a mudanças na minha vida, um maior reconhecimento da minha escrita e o reforço da vontade de seguir adiante, para novas incursões no universo literário.

s.m. Conte-nos que tal é a experiência dentro da barriga do monstro livreiro do nosso país.

A.F. Nada boa, diga-se. Em Portugal tudo se publica e nada é publicável. É muito complicado conseguir abrir a brecha inicial na barrriga livreira: “neste momento não estamos a aceitar...”, “não se coaduna com a linha editorial”, são respostas correntes. Pior ainda, muitos editores nem se dignam responder, não sabem onde guardaram os originais, dão-se ao luxo de ignorarem a correspondência a solicitar informações sobre a apreciação das obras... depois aparecem na ribalta aqueles exemplares de boa literatura: - “Eu Carolina, blá, blá,blá” e outros que tais... é um bocado irritante!

s.m. Como surgiu o título do seu livro “Coisas de Nada”?

A.F. Surgiu por antítese às “grandes coisas” dos telejornais, das 1ªs páginas dos diários, de tudo aquilo que se ventila como se de vida a sério se tratasse. Quis fazer focagens rápidas sobre as vidas que se desenrolam todos os dias, sem anúncio e sem protagonismo.

s.m. Descreve-o como uma Colectânea de Retratos Escritos. Fale-nos um pouco de “Coisas de Nada”, por favor.

A.F. Por norma, gosto de passear entre as pessoas e interrogar-me sobre o que estará por trás de uns olhos, atitudes, gestos, posturas corporais. Acho curioso “dissecar” esses aspectos e, quando estes me chamam a atenção, observar e ouvir de todas as formas as vidas que se escondem (melhor ou pior) atrás desses traços oferecidos ao olhar exterior.

É um exercício de paciência sintetizar a essência dos sujeitos em meia dúzia de traços fulcrais, a planta e o alçado de cada pessoa, dados através de curtas descrições de um momento exacto onde os sujeitos se desfazem da máscara de todos os dias.

Ao invés de longas descrições, gosto de procurar, como se de fotografia se tratasse, o close-up, o zoom daquele momento exacto em que o ser humano se revela (mesmo que não queira).

s.m. Ana, considera mais complexo - escrever poesia ou prosa?

A.F. O nível de complexidade é semelhante: poesia e prosa são equações de termos diferentes, só isso.

s.m. Teve formação académica em Escrita Criativa? O que pensa desta disciplina?

A.F. A minha formação académica não passou pela escrita criativa. Acho uma disciplina interessante. A criatividade, como tantas outras coisas, é muitas vezes uma questão de prática e as oficinas deste tipo , se devidamente orientadas, podem revelar-se ferramentas excelentes para explorar o potencial criativo e motivar mudanças.

s.m. Em termos literários, acredita no termo "Inspiração", no termo "Transpiração" ou na sua simbiose?

A.F. Primeiro a inspiração, depois a simbiose de ambas. O texto perfeito nasce do verso perfeito e do posterior trabalho sobre esta inspiração.

s.m. Sente necessidade de organizar o seu tempo para escrever?

A.F. Sinto necessidade de um tempo para reflectir sobre a minha inspiração. Não tenho hábitos e horários rígidos de escrita, vou anotando aqui e ali. Quando o pensamento já se estrutura para além das pequenas linhas, parto então para a consistência dos grandes detalhes.

s.m. Como caracteriza o seu processo de escrita?

A.F. Constante. Como quem respira. Os dias servem inteiros para observar os sentimentos e sobretudo as pessoas. Faço muitos exercícios de escrita automática, agrada-me o processo. Depois exploro essa escrita, depurando excessos, procurando a melhor palavra, a expressão exacta, sem excesso, nem rateio. Escrever, mais do que um dom, é uma necessidade e um prazer. de quem vai recolhendo pequenos zooms. Gosto de começar pelo sorriso e continuar explorando a expressão do olhar...

s.m. O seu livro foi editado pela Corpos Editores. Como foi o processo?

A.F. Simples. Enviei o original, que foi lido e aceite com brevidade; acertamos pormenores de edição; pude participar na elaboração da capa, na qual optei por incluir a reprodução de uma gravura feita por uma amiga, muito de acordo com o espírito do livro. Foi tudo agradavelmente simples e claro.

s.m. O que pensa das edições de autor?

A.F. Num país onde a máquina editorial funciona da maneira que sabemos, as edições de autor são muitas vezes a única possibilidade de mostrar um escritor e uma escrita de qualidade, que de outro modo, ficariam no arquivo dos ilustres e incompetentes desconhecidos. Que o digam Saramago e tantos outros que assim começaram.

s.m. Qual é a sua opinião em relação ao mundo editorial?

A.F. Frequentemente “outros interesses maiores se levantam”, além da qualidade. É triste!

s.m. Acha que o público, em geral, é mais sensível à poesia ou ao romance? E qual será a razão?

A.F. Há público para as duas vertentes. A poesia necessita de outra atenção, outra disponibilidade de recursos imagéticos e reflexivos de que o romance prescinde com mais facilidade.

s.m. Ana, já se aventurou no mundo dos concursos literários?

A.F. Ainda não. Terminei há pouco um livro de ficção juvenil (em parceria com uma amiga) e estamos a pensar seriamente em enveredar por aí, à procura de publicação. Veremos...

s.m. Que autores lê frequentemente?

A.F. Nos últimos três anos tenho lido essencialmente autores relacionados com Psicologia, Psicoterapias, Teorias da Comunicação.

O meu primeiro autor de referência foi talvez Charles Dickens, que comecei a ler por volta dos 12 anos.

s.m. Qual foi, até hoje, o(s) livro(s) e/ ou autor(es) que mais a marcaram? Porquê?

A.F. Oliver Twist, de Charles Dickens – lido pela 1ª vez aos 12 anos e relido várias vezes ao longo do tempo; O retrato de Dorian Gray – fabulosa, a ideia de possuir um retrato que envelhece enquanto o seu modelo se vai mantendo aparentemente jovem, interessante, num percurso contra natura ao longo dos anos; a Metamorfose, de Kafka (que faria qualquer um de nós se ao acordar se visse fisicamente transformado em insecto?)

s.m. Qual é, na sua opinião, o/a artista português(a) – das mais variadas vertentes artísticas - que merece, da sua parte, maior admiração pelo trabalho desenvolvido para a divulgação da Cultura Portuguesa?

A.F. Mário Cesariny, Herberto Helder, Almada Negreiros, Vieira da Silva, Cargaleiro, , João Paulo Seara Cardoso e o Teatro de Marionetas do Porto, António Lobo Antunes e muitos outros.

s.m. Qual é a sua opinião em relação à forma como a Arte é vista no nosso país? E considera que o povo português demonstra um grande interesse pelas diversas formas artísticas nacionais e internacionais?

A.F. Acredito que o povo português possui grande interesse nas diversas formas de arte, o que falta, talvez, é uma maior acessibilidade (nos seus diversos aspectos) a exposições, livros, teatro, cinema de qualidade. Se porventura reside por ex., na área de Lisboa ou mesmo até no Porto, experimente ir pelo menos uma vez por semana ao teatro, ao cinema, a uma exposição de qualidade. Depois passe pela livraria mais próxima e compre um livro. No final da semana faça as contas. Nada fácil para o geral da população, criar e manter o gosto pela cultura que se mostra tão dispendiosa no geral. Isto já para não falar das pessoas que estão fora dos grandes centros urbanos e que, por defeito, não têm acesso a nada, culturalmente falando.

s.m. O que nos reserva para um futuro próximo, em termos de criação literária?

A.F. A ficção juvenil, que espero concretizar/publicar em breve, novos livros de prosa poética e um romance sobre a solidão e os afectos reinventados. A ideia surgiu-me com mais intensidade depois de ver o filme “Punch Drunk Love”, que recomendo.

s.m. Que conselho daria a quem sonha melhorar o seu processo de escrita e, por fim, publicar?

A.F. Ainda que inicialmente só para ti, ainda que apenas apontamentos passados de mão em mão entre os amigos... não pares, não canses, não descanses.

s.m. Escolha, por favor, um poema da sua obra e transcreva-o para os leitores do Cultura poderem ter uma antevisão do seu livro.

A.F. Vou apenas transcrever um excerto de uma das obras de Jostein Gaarder, que serve de introdução ao meu livro:

“Recordo-me que costuma voar sobre a cidade.

Via todas as casas lá do alto e podia escolher livremente onde descer para observar à vontade os interiores...

... olhando pelas janelas, observava como viviam as pessoas...”



s.m. Agradeço, em nome do Cultura, a sua disponibilidade e interesse pelo trabalho que este blogue tenta fazer a nível da divulgação artística e desejo-lhe muito sucesso.

sábado, setembro 01, 2007

Entrevista a Paulo D.

Usando o Pseudónimo Paulo D., este autor (cujo nome verdadeiro não posso revelar) escreveu o Romance - “Esboço de Vida num Reencontro Inesperado" editado pela Corpos Editora. Vamos conhecê-lo melhor.

Deseja comprar o Livro de Paulo D.?


sandra martins – Que idade tem? Qual é/ foi o seu percurso académico? Qual é a sua profissão?

Vinte e sete. Licenciado em Biologia Marinha pela Universidade de Swansea do Reino Unido. Mestrado em Ciências do Mar – Recursos Marinhos pelo Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar da Universidade do Porto. Neste momento trabalho como guia nas caves de Vinho do Porto Graham’s.

s.m. Quando começou a escrever?

Comecei a escrever já há algum tempo. Não me lembro bem quando... creio que por volta dos dezasseis anos, um pouco como toda a gente, comecei com poemas pueris de adolescência que utilizava depois como letras de canções, mas escrever a sério... bem eu ainda acho que não escrevo a sério (risos). Digamos que eu não me levo muito a sério, o que não quer dizer que o que faço não o faça com a maior seriedade.

s.m. Além do livro que apresentamos hoje aqui no Cultura já publicou e/ ou publica, actualmente, noutros suportes?

Não, que me lembre não.

s.m. Actualmente a Internet é uma importante ferramenta na divulgação de todo o tipo de arte. O que pensa deste mundo? Noto que não aderiu ao mundo dos blogues. Alguma razão em particular?

Concordo consigo, penso que a Internet abriu imensas portas para muita gente seja em que área for. Não só na Arte, mas também no mundo empresarial e social. Nomeadamente em termos de emprego, criação de empresas ou no caso social com os sites de “chat” ou de encontros que se estão a tornar bastante significativos na criação de novos casais. Digamos que a Internet tornou mais acessível e também possível a expressão individual de cada um de uma forma que há algum tempo era apenas permitida a uma minoria quase de elite. Evidentemente que em tudo isso existe o reverso da medalha, por vezes com desenvolvimentos nefastos como todos conhecemos casos ou já ouvimos falar. Mas voltando concretamente à Arte... Julgo, como disse, que a Internet se tornou importantíssima para não dizer indispensável para a divulgação de uma obra, no entanto não creio que deva ser o único meio. Pois também na relação “divulgação da obra” – Internet existe o reverso da medalha, sobretudo no que diz respeito a autores pouco conhecidos ou mesmo estreantes. Existe o perigo da obra passar despercebida. A Internet é um universo tão vasto que quase infinito e onde se pode encontrar do melhor ao pior, há o risco para um autor que só confie nesse meio de a obra se perder nessa imensidão de informação e não ter o devido reconhecimento. A Internet é vastíssima e é preciso um certo grau de sorte para que alguém encontre a página de um autor desconhecido e fique absorto pela sua obra. A maioria das pessoas vai à Internet à procura de informações sobre assuntos que já conhece e quer aprofundar ou sobre temas que “ouviu falar”. E no caso da Arte existe uma grande diferença entre ver ou ouvir uma obra ao vivo e pelo computador. Se bem que no caso da música seja um pouco mais fácil e aceitável. Mas no caso da literatura existe uma grande diferença entre ler no monitor e segurar uma folha de papel. Eu pessoalmente prefiro o papel...

Não existe nenhuma razão especial pela qual não tenha aderido ao mundo dos blogues. Tempo..., paciência..., preguiça..., um pouco dos três, talvez. Não sei... Acho que não tenho jeito para blogues. Para o estilo de escrita quotidiana que parece tipificar a maioria deles. Confesso também que não sou grande leitor de blogues, mas o vosso é deveras interessante (risos). Tenho alguns amigos que têm blogues nos quais escrevi algumas coisas em género de comentário, eles dizem que gostam, que deveria escrever um, mas as suas posições são dúbias e eu continuo a achar que não tenho grande jeito para a coisa.

s.m. Com certeza já terá recebido boas críticas em relação ao seu trabalho literário. Como se sente perante as palavras dos seus leitores e críticos?

Sim, evidentemente que já recebi boas críticas em relação ao meu trabalho literário, mas foram sempre de pessoas conhecidas ou amigos. O que na minha óptica, como referi na resposta anterior, as torna... um pouco dúbias (risos). É claro que é sempre agradável ouvir elogios e também críticas construtivas, mas não se devem levar demasiado a sério. Creio que se deve aprender com toda a informação que se recebe. Filtrá-la e utilizá-la para na próxima vez fazer melhor e por inerência nos tornarmos também nós, enquanto pessoas, melhores.

s.m. Qual foi a sensação de ver o seu primeiro livro publicado? Trouxe mudanças na sua vida?

Foi extremamente esquisito. Lembro-me de não ter tido nenhuma consciencialização especial do momento ou qualquer sensação plena de realização. Recordo-me apenas de pensar e desejar que fosse o primeiro de vários.

A publicação do livro não trouxe grandes mudanças na minha vida, mas fiquei claramente com a sensação que mudou a forma como quem já me conhecia olhava para mim. Como se por geração espontânea, de um dia para o outro tivesse nascido um misto de surpresa, espanto, orgulho e... ouso dizê-lo admiração. Foi estranho no impacto inicial lidar com isso.

s.m. Conte-nos que tal é a experiência dentro da barriga do monstro livreiro do nosso país.

Olhe, não faço ideia. Sinceramente. Não me interessei muito por saber como é que o livro se deu nas várias livrarias onde esteve. Pode parecer um pouco estranho, mas tenho consciência que é muito difícil alguém pegar num livro de um autor que não conhece de lado nenhum e comprá-lo. Contra mim falo...

s.m. Como surgiu o título do seu livro - “Esboço de Vida num Reencontro Inesperado”?

O título surgiu... já não me lembro bem como foi. Acho que é uma interacção ou justaposição da história em si e do momento de vida em que me encontrava. É para mim impossível desligar um do outro. Criar algo a partir do nada (se é que isso nos é possível, a nós ser humano) conseguir criar sem colocar nada das nossas experiências pessoais.

s.m. Fale-nos um pouco dele, por favor.

Para responder a esta sua pergunta, um pouco no seguimento da anterior. Creio que a história em si, entre outras coisas, conta um reencontro. Um reencontro consigo próprio. Ao qual, julgo eu, podemos estar todos sujeitos a qualquer instante. Como se o livro estivesse dividido em pequenas “micro-histórias” que juntas fazem todo o enredo. Temos o romance entre as duas personagens principais. A ligeira crítica social na trama do local de trabalho através das personagens secundárias e o reencontro já mencionado. Mas... será preciso ler o livro para verificar se concordam ou não comigo.

s.m. Porquê o pseudónimo Paulo D.?

Timidez. Insegurança. As razões habituais, mas não só. Era algo que em certa altura da minha vida fazia muito sentido. Hoje não sei se ainda fará... O tempo e os sentimentos são algo que, em mim, não fazem muito sentido juntos. E depois eu gosto da criação de personagens. E o Paulo D. é para mim uma personagem. Uma das muitas personagens que existem dentro de mim. Para tudo o que já criei, usei nomes diferentes, em suma criei personagens. É verdade que nalgumas coisas que criei se encontra o meu nome, Miguel Lopo, mas nunca em destaque. Sempre em letras pequeninas. A criação de personagens dá-me mais liberdade, permite explorar lados que não saberia existir sem elas. Ao mesmo tempo obriga-me a pensar de um modo diferente do meu, diferente daquele que habitualmente faço.

s.m. Uma vez que já tem experiência posso perguntar: considera mais complexo - escrever poesia ou prosa?

Para mim a poesia é mais difícil. Os grandes poetas têm o dom de conseguir dizer muito com pouco. Isso por si só já é um feito. Consegui-lo de forma bela é... no mínimo admirável. Interessei-me há tempos por alguns poetas ingleses. Do domínio da poesia épica, pré-romântica e romântica como Milton, Blake que descobri ainda muito novo graças a um filme de ambiente extraordinário chamado Dead Man de Jim Jarmusch, e Shelley. As suas obras são de uma riqueza, uma complexidade, uma harmonia que é impossível não ficar estonteado pela sua inteligência. Paradise Lost (Paraíso Perdido) de Milton e de uma beleza e inteligência absurda. A obra de uma vida. Nunca seria capaz de escrever algo minimamente comparável. Sinceramente a poesia que tentei escrever, para além de letras de canções, é muito fraca. Não sei bem como a caracterizar em termos de estilo. É mesmo algo sobre o qual não sei o que dizer... (risos). Gosto bastante mais de prosa. Creio que tem mais a ver comigo. É-me mais fácil absorver e instantâneo escrever. Gosto de longas e pormenorizadas descrições na história e essas são um pouco impraticáveis em poesia.

s.m. Teve formação académica em Escrita Criativa? O que pensa desta disciplina?

Não tive qualquer formação académica em Escrita Criativa. Como não conheço a disciplina não vou opinar, mas o nome parece-me apelativo.

s.m. Em termos literários, acredita no termo "Inspiração", no termo "Transpiração" ou na sua simbiose?

Acredito evidentemente na sua simbiose, se bem que não saiba bem definir o que é inspiração. Do mesmo modo que é difícil descortinar o que é transpiração. As duas estão demasiado interligadas para as podermos separar. Onde acaba uma e começa a outra? A inspiração talvez seja, aparentemente, mas difícil de definir porque não é palpável, não se sente. Alguém que está inspirado não o nota no momento, não pensa sequer no assunto, concentra-se apenas no trabalho, em completar a sua visão e aí já entramos no domínio da transpiração. Claro que existem pessoas com mais talento que outras, se quiser, que têm “inspiração” mais vezes que as outras, mas não acredito que se consiga algo sem muito trabalho e... transpiração. Ouso dizer que esse tipo de termos: “Inspiração” e “Transpiração” foram inventados por críticos e apreciadores da obra de Arte, de modo a explicar a capacidade do autor que se distingue em conseguir algo que a maioria das pessoas não consegue.

O ser humano tem por hábito racionalizar tudo o que o rodeia, mas nem sempre é possível.

s.m. Sente necessidade de organizar o seu tempo para escrever?

Para ser sincero sinto, mas não o consigo lá muito bem. Neste momento o meu dia está bastante preenchido e deixa-me pouco tempo para a escrita. Para escrever preciso de estar mesmo dentro da história, de entrar num mundo diferente do “normal” em que me encontro. É preciso uma certa adaptação que por vezes demora horas. Não me considero alguém de “pluma fácil”. A minha actividade profissional neste momento é bastante exigente em termos de horário e nesta altura do ano também em disponibilidade, por isso para grande pena minha, o tempo para escrever é pouco.

s.m. Como caracteriza o seu processo de escrita?

Desorganizado e bastante anárquico. Depois lá vou compondo tudo e sai bastante ordenado e julgo eu, coerente.

s.m. O seu livro foi editado pela Corpos Editora. Como foi o processo?

Foi bastante simples. Enviei o meu manuscrito para a Corpos, como já o tinha feito para outras editoras. Eles foram os primeiros a responder e a proposta interessou-me. Para além que me agradava a ideia de lançar o livro através de uma pequena editora, pouco conhecida.

s.m. O que pensa das edições de autor?

Penso que são uma muito boa alternativa para todo o autor que não tenha conseguido despertar o interesse de nenhuma editora e que queira um marco físico da sua obra para a poder difundir para outras pessoas, nem que sejam só amigos e conhecidos. Pode-me dizer que existe a Internet para isso, mas como já disse anteriormente prefiro o papel

s.m. Qual é a sua opinião em relação ao mundo editorial?

Não tenho grande opinião, é um mundo que conheço muito mal, por isso prefiro não opinar. Só julgo é que talvez deveriam ser mais organizados. Eu ainda estou a receber respostas de editoras a quem enviei o meu manuscrito há mais de um ano. E pelo que me disseram o prazo de resposta médio para um manuscrito enviado é de um ano a ano e meio. Parece-me demasiado tempo. É verdade que também desconheço as dificuldades com que se deparam e o número de manuscritos que recebem, digamos por mês, mas mesmo assim... Parece-me muito. Contudo, friso uma vez mais que desconheço a sua realidade para emitir juízos de valor.

s.m. Acha que o público, em geral, é mais sensível à poesia ou ao romance? E qual será a razão?

Diria o romance. Mais fácil de ler na minha opinião. Mais fácil a sua assimilação. O ser humano é por natureza preguiçoso (e contra mim falo) e ler grande poesia dá trabalho. A sua compreensão não é imediata, é preciso analisá-la e digeri-la. Eu próprio acho que ainda não sei ler poesia. Talvez o adquira com a idade... espero eu.

s.m. Já se aventurou no mundo dos concursos literários?

Não por acaso nunca... Espere, sim uma vez. Enviei o meu manuscrito para um concurso da FNAC. Telefonou-me uma senhora a dizer que não o podiam considerar porque tinha chegado um dia depois do prazo. Compreendo, que podia eu dizer, são regras.

s.m. Que autores lê frequentemente?

Não costumo ler autores, mas sim obras. Não tenho por norma ler tudo de um autor só porque gostei de um dos seu livros, julgo já o ter feito, mas agora prefiro abranger o maior número possível de autores diferentes e portanto opiniões, pontos de vista e estilos diferentes. Tenho também a sorte de falar e compreender praticamente tão bem como o português mais duas outras línguas (francês e inglês) o que me permite ler na sua versão original um número assinalável de obras. O que, por muito respeito que tenha às traduções, é sempre mais interessante.

s.m. Qual foi, até hoje, o(s) livro(s) e/ ou autor(es) que mais o marcaram? Porquê?

Vários: Eça, Pessoa, Virgílio Ferreira, Saramago, Chateaubriand, Camus, Proust, Céline, Borges, Eco, Kafka, Kundera, Joyce, Orwell, Burton...

Entre muitos outros. Porque é que me marcaram? Porque me alargaram os horizontes.

s.m. Qual é, na sua opinião, o/a artista português(a) – das mais variadas vertentes artísticas - que merece, da sua parte, maior admiração pelo trabalho desenvolvido para a divulgação da Cultura Portuguesa?

Pergunta difícil... Sinceramente não sei. Se falarmos em termo mediáticos há evidentemente José Saramago por ter recebido o Nobel e claro pela qualidade da obra. Em termos de música temos os Madredeus que são, julgo eu, o nosso maior sucesso musical além fronteiras. Mas sinceramente não sei. Não quero dar opinião porque posso ser injusto e não me estar a lembrar de alguém.

s.m. Qual é a sua opinião em relação à forma como a Arte é vista no nosso país? E considera que o povo português demonstra um grande interesse pelas diversas formas artísticas nacionais e internacionais?

Creio que a Arte, infelizmente ainda é vista com alguma desconfiança. Muita gente a considera uma perda de tempo porque não é algo que à primeira vista seja de rentabilidade imediata. Quantos pais saltarão de alegria ao ouvirem que os seus filhos querem ser pintores, escultores, músicos, bailarinos em vez de médicos, advogados ou engenheiros? Uma minoria de certeza. Existe uma pressão da sociedade em que vivemos para o sucesso e lucro imediato – produtividade imediata, seja lá o que isso for. E a Arte é sabido, não dá dinheiro. O problema é que existem domínios do ser humano que são necessários à sua existência e nem sempre podem ser vistos de um ponto de vista económico. Penso que a Arte é um deles e a saúde também. A saúde das pessoas não pode ser um negócio.

É uma mudança de mentalidades que tem de ser fomentada e incentivada de cima para baixo. De quem tem poder de decisão ou ambiciona tê-lo para quem não tem.

s.m. O que nos reserva para um futuro próximo, em termos de criação literária?

Tenho várias coisas pendentes. Espero poder acabá-las brevemente.

s.m. Que conselho daria a quem sonha melhorar o seu processo de escrita e, por fim, publicar?

Praticar, acreditar e arriscar.

Agradeço, em nome do Cultura, a sua disponibilidade e interesse pelo trabalho que este blogue tenta fazer a nível da divulgação artística e desejo-lhe muito sucesso e inspiração.

quarta-feira, agosto 01, 2007

Hugo Cabelo, entrevistado no dia 12 de Julho, enviou-nos um poema sobre o seu processo de criação. Apreciem...

Por Vezes Assim Nasce...

Acaba por ser engraçado,
Ter que vir para aqui,
Fugir ao mundo
Para te fazer existir.

Existir, já existias
Enquanto deambulavas pelo meu cérebro,
Numa posição incerta,
Carreiros criados à pressa
Só para te deixar passar.

Corres, saltas, vais de encontro
Ao que não se desvia do teu caminho
(por alguma via tens que sair),
Roças as paredes cranianas,
Envolves-te novamente
Fugindo à detecção,
Implodes devagarinho, concentras-te
E do nada rebentas incontrolável
Para seres expelido
Por actos ou palavras compulsivas.

Jorras por todos os poros
E o pobre sou eu
Por não ser veloz como tu
Deixando-te com faltas,
Disparidades, acabando por te perder
Emerges escrito incompleto
Das partes mais esquivas
Que se perderam.
Essas não morrem, nem se consomem,
Espreitam provocantes
Pelas entrelinhas.

No dia que te captar no teu todo
Tenho medo de te matar,
Não me impeço de continuar a tentar.

Hugo Cabelo

quinta-feira, julho 26, 2007

Entrevista a Miguel Nogueira

O 1º Livro Publicado:O 2º Livro Publicado:
Entrevista:

É um imenso prazer poder contar com as suas palavras aqui no nosso Blogue. Esperamos que com estas questões os nossos leitores o possam vir a conhecer melhor e, quem sabe, para quem ainda não o leu, despertar o interesse para o seu trabalho literário.

sandra martins – Que idade tem? Qual é/ foi o seu percurso académico? Qual é a sua profissão?

M.N. Tenho 21 anos. Fiz a escola secundaria até ao 9º ano, mas depois apercebi-me que precisava de algo diferente, uma área diferente que o ensino regular não me podia oferecer, e sendo assim estou neste momento no meu 3º ano, prestes a completar um curso profissional de nível III de Audiovisuais. Dado que o meu sonho é seguir cinema, mais concretamente realização, pretendo continuar os estudos depois de completar o curso. São estas as minhas duas paixões: escrever e cinema. Apenas e só estudante.

s.m. Quando começou a escrever?

M.N. Comecei a escrever aos meus 15 anos, depois de uma típica desilusão amorosa à “teenager”. Primeiro poesia, e com o tempo fui alargando um pouco mais, chegando a escrever pequenos contos de fantasia, reflexões sobre a vida e a sociedade na qual nos inserimos. E agora com alguma experiência, por assim dizer, tento escrever o meu primeiro romance, e tento aliar a minha escrita a outras formas de arte.

s.m. Além dos livros que apresentamos hoje aqui no Cultura já publicou e/ ou publica, actualmente, noutros suportes? (Quais?)

M.N. Para já apenas podem encontrar o “Fragmentos de Ninguém” e o “Lua Morta”. Mas espero em breve poder me exprimir artisticamente de outras formas, tais como BD, e argumentos para curtas-metragens que eu próprio realizo e faço a sua edição/montagem. E procuro sempre não ter apenas só a palavra, mas sim algo mais.

s.m. Actualmente a Internet é uma importante ferramenta na divulgação de todo o tipo de arte. O que pensa deste mundo? Noto que não aderiu ao mundo dos blogues. Alguma razão em particular?

M.N. A Internet é uma poderosa ferramenta para alcançar muitos meios, através dela partilhamos informações, partilhamos histórias, conhecemos pessoas de qualquer canto do mundo. Além de que podemos fazer mil e umas coisas comodamente em casa, não sei se isso será bom ou não, mas que nos torna um pouco mais sedentários e mais dependentes das novas tecnologias, também é uma verdade. Não podemos criticar muito porque tudo tem os seus lados positivos e negativos. Não existe qualquer razão especial para não ter criado um blogue, acho que nunca me dei ao trabalho de criar um, talvez depois desta entrevista…

s.m. Com certeza já terá recebido boas críticas em relação ao seu trabalho literário. Principalmente porque já publicou duas obras. Como se sente perante as palavras dos seus leitores e críticos?

M.N. É sempre bom receber elogios, mas prefiro receber críticas construtivas. Ouvir muitos elogios, penso que faz com que me acomode, faz-me parecer que cheguei a um patamar onde posso relaxar, e não quero isso. Gosto de discutir, ouvir novas ideias, formas de melhorar, e isso que me move, que me faz sempre querer mais e melhor quando escrevo. Encontrar uma maneira de chegar a um público mais vasto.

s.m. Qual foi a sensação de ver o seu primeiro livro publicado? Trouxe mudanças na sua vida? E o segundo?

M.N. Para ser sincero fiquei muito mais entusiasmado com a publicação do meu segundo livro. Com o primeiro foi um pouco do género “ok consegui, agora tenho de fazer melhor”, fiquei contente como é óbvio, porque apesar de tudo para a Corpos ter apostado em mim e porque algum talento haveria de ter. Com o segundo, senti-me mais realizado, mais orgulhoso, envolvi-me mais no desenvolvimento e sua apresentação. E também por motivos pessoais e desenvolvimento artístico, sinto-me mais “preso” ao “Lua Morta”. Em termos de mudanças, é sempre bom irmos a uma livraria, ver um livro nosso na estante. Tudo continua igual, os mesmos objectivos, o mesmo Miguel.

s.m. Conte-nos que tal é a experiência dentro da barriga do monstro livreiro do nosso país.

M.N. É um pouco complicado, dado que as editoras normalmente apostam já em nomes conhecidos, nomes que podem trazer pelo menos algum lucro. Torna-se uma luta conseguir levar as palavras a pessoas que desejam ler, desejam algo novo e diferente. Penso que o grande problema é que Portugal e o seu atraso de mentalidades, vive ainda muito agarrado ao passado. Primeiro que algo mude e evolua é um longo caminho a percorrer. Então o “Português” complica sempre o que é tão fácil de fazer. Para novos talentos é muito difícil alcançar algum reconhecimento, porque simplesmente não se aposta, prefere-se sempre jogar pelo seguro das velhas glórias.

s.m. Como surgiram os títulos dos seus livros?

M.N. O título do primeiro livro “Fragmentos de Ninguém”, apareceu de forma simples, como foi o meu primeiro livro quis um título que ilustrasse cada poema nele inserido. Como eu sinto que cada leitor se pode identificar com pelo menos um ou dois poemas, quis um titulo que não agarrasse o livro apenas a mim, mas sim a todos que o lessem, ou seja, cada poema é um momento, uma pequena história resumida, são fragmentos de situações e pensamentos meus, mas também desejo que cada leitor sinta as minhas palavras e as possa tomar, como sendo deles. Assim nasceu “Fragmentos de Ninguém”, não são só meus, não são de ninguém, são de toda a gente que queira tomar como seus. O título “Lua Morta” é um pouco mais pessoal, e também reflecte o caminho que tomei para a minha escrita, que se tornou um pouco mais mórbida e gótica, mas mantendo sempre o corpo do livro anterior, mas mais negro.

s.m. Fale-nos um pouco de cada uma das suas obras.

M.N. Os dois livros são bastante similares, vario sempre os assuntos e o objecto poético. O primeiro foi um agrupamento de momentos e reflexões que passei para o papel desde os meus 15 anos, e escolhi aqueles que achei que me davam melhor a conhecer ao público. O segundo tornou-se mais pessoal e pude brincar um pouco mais, arrisquei um pouco mais enveredando por uma escrita mais negra e “decadente”, com toques do surreal e abstracto, e criticas sociais. Os dois mostram o meu “Eu”, os meus sentimentos e forma de pensar, são muito pessoais, mas não tive medo de os revelar já que tenho a certeza que muita gente sente o mesmo, e mesmo que não sinta o importante é que entenda, que passe a sentir algo.

s.m. Uma vez que já tem experiência posso perguntar: considera mais complexo - escrever poesia ou prosa?

M.N. Para mim nem uma nem outra, depende do que sinto, daquilo que pretendo transmitir. De como quero expor as minhas palavras, o resto sai naturalmente e no fim ou tenho uma poesia ou prosa. Não me preocupo muito com regras ou linhas a seguir, o importante é a palavra.

s.m. Teve formação académica em Escrita Criativa? O que pensa desta disciplina?

M.N. Não, nunca tive formação nessa área. Acho que é uma disciplina que pode ajudar bastante o escritor a desenvolver as suas técnicas e formas de contar as histórias que deseja. Acho que a Escrita Criativa ajuda a mexer com a imaginação, a criar, a desenvolver, pode nos ajudar a libertar para conceitos e tramas que pensávamos nunca sermos capazes de visionar e passar para o papel.

s.m. Em termos literários, acredita no termo "Inspiração", no termo "Transpiração" ou na sua simbiose?

M.N. Acredito na “Inspiração”, depois tudo surge naturalmente, a escrita flúi e lá vamos nós criar “pessoas”, “locais”, “sentimentos” etc… Quando um escritor escreve carrega dentro dele várias personalidades, e quando acaba torna-se quase que um nascimento, o escritor volta ao seu “Eu”. Mas antes disso surge a “Inspiração”, a ideia principal, aquele “Bang” que despoleta tudo o resto.

s.m. Sente necessidade de organizar o seu tempo para escrever?

M.N.Todos os dias arranjo tempo para escrever, ando sempre com uma caderno de rascunhos para todo o lado, não saio de casa sem ele, sabe-se lá quando é que a inspiração se vai esbarrar contra nós. Mas normalmente tenho quase um ritual, todos os dias durante a tarde, pelo menos duas horas, vou para um cafezinho calmo e fico lá com os meus livros e caderno, depois à noite na janela ou no quarto.

s.m. Como caracteriza o seu processo de escrita?

M.N. Para a poesia é algo natural, sinto a necessidade de escrever, e escrevo. E a poesia, para mim, é a escrita que consegue contar histórias com pequenas palavras e significar tanto. Em relação a tudo o resto que escrevo, baseio-me sempre em algo antigo, filmes, contos, um quadro, procuro algo, nem que seja uma palavra, uma frase que me faça pensar e de repente aquela frase que mexeu comigo, já parece uma árvore com várias ramificações. Depois vou tentando conjugar as várias ideias e supostas soluções. No final muitas das vezes não tem nada a ver com a ideia original, mas todo o caminho que a ideia percorreu até eu ter finalmente terminado, foi o que a tornou coesa e que me deu entusiasmo ao escrever.

s.m. Os seus livros foram editados pela Corpos Editores. Como foi o processo?

M.N. Foi simples, rápido e eficaz. Acho que a forma mais crua que consigo encontrar para descrever.

s.m. O que pensa das edições de autor?

M.N. São edições para amigos. Ganhamos algum reconhecimento, mas basicamente não passa disso. Todos os dias temos que batalhar para o nosso nome não desvanecer.

s.m. Qual é a sua opinião em relação ao mundo editorial?

M.N. Muita quantidade e pouca qualidade. Parece que anda tudo atrás de dinheiro fácil.

Também a verdade é que ninguém se preocupa, o que importa é ter lá o livrinho.

s.m. Acha que o público, em geral, é mais sensível à poesia ou ao romance? E qual será a razão?

M.N. O público está muito mais aberto a romances, também porque têm muita mais visibilidade, e em termos de marketing estão em clara vantagem. A poesia fica encostada a um canto, no qual poucos se aventuram. É o que a tradição manda, os grandes poetas estão todos mortos.

s.m. Miguel, já se aventurou no mundo dos concursos literários?

M.N. Para já ainda não. Quando tiver algo diferente para mostrar talvez arrisque.

s.m. Que autores lê frequentemente?

M.N. O meu autor favorito sem sombras de dúvidas é Stephen King, acho divinal o livro “Misery”, mas também considero todas as suas obras geniais. A psicologia, o enredo, a maneira como escreve e que nos faz “espumar” pela próxima página é algo soberbo. Mas também gosto bastante de Anne Rice, Nicholas Sparks, John Steinback, Ingmar Bergman, Eça de Queirós, Miguel Torga, Agatha Christie, Paul Auster, Sophia de Mello Breyner Andresen, Antero de Quental, Fernando Pessoa, Howard Phillips Lovecraft, Umberto Eco, Gabriel Garcia Marquez, entre muitos outros.

s.m. Qual foi, até hoje, o(s) livro(s) e/ ou autor(es) que mais o marcaram? Porquê?

M.N. Stephen King – Misery. Simplesmente apaixonei-me, foi o primeiro livro que li deste autor, e acabei por devorar cada página. A psicologia, a dor, as situações, a demência humana que ele descreveu, acabam por tocar no leitor.

s.m. Qual é, na sua opinião, o/a artista português(a) – das mais variadas vertentes artísticas - que merece, da sua parte, maior admiração pelo trabalho desenvolvido para a divulgação da Cultura Portuguesa?

M.N. É uma questão complicada, mas já que tenho de eleger alguém, será então José Saramago, por variados motivos mas o de grande peso é o Prémio Nobel. Apesar de as suas obras não serem exactamente do meu agrado.

s.m. O que nos reserva para um futuro próximo, em termos de criação literária?

M.N. Já tenho material para outro livro de poesia. Também estou a terminar de escrever o meu primeiro romance, e depois disso quero me concentrar na escrita de pequenos contos de fantasia. E entre a escrita, vou-me dividindo a criar BD com argumentos meus e também curtas-metragens.

s.m. Que conselho daria a quem sonha melhorar o seu processo de escrita e, por fim, publicar?

M.N. Primeiro de tudo, ler muito e muito e muito e muito…E inconscientemente vamos absorvendo o que se lemos, acabamos por utilizar técnicas e maneiras mais inteligentes de desenvolvimento, de forma a tornar a leitura mais agradável para o leitor. Mas claro que para tudo é necessário também talento, é preciso saber exprimir-se através das palavras. Publicar é que já se torna mais complicado, acho que tendo talento e com alguma perseverança acabamos sempre por alcançar o que desejamos.

s.m. Escolha, por favor, um excerto/poema da sua obra e transcreva-o para os leitores do Cultura poderem ter uma antevisão da sua escrita.

Louco Social

Entusiasticamente, corres e tropeças, gritas e berras, levantas-te e cais. Atravessas ruas sem medo, um carro passa, quase te desfaz em cacos. O condutor envia palavras insultuosas na tua direcção. Tu não ouves. És um louco social, sem parâmetros nem roupas. És livre e vergonhoso. Torturas cada pessoa da tua vida com teus pensamentos. Pintas os momentos do teu respirar de forma abstracta, e juntas surrealismo à tua casa.

Incendeias vidas, queimas verdades e extingues mentiras com um bafo gelado.

“ Um Louco Social!” – Chamam-te eles.

Mas tu és tu, és um ser certo na tua ideia, do que deve ser a eterna juventude do espírito. Um freguês que consome a morte, olha à sua volta e degenera os elementos.

“Um Louco Social!” – Chamam-te eles

Crias avenidas de liberdade na tua mente, onde entusiasticamente, corres e tropeças, gritas e berras, cais e não te levantas. Os teus joelhos sangram, arrastas os ossos pelo chão. Mas o que te dói mais são as lágrimas de sangue que choras, que te obrigam a chorar, por todos os muros que te erguem em forma de protesto.

“Um Louco Social!” – Chamam-te eles.

Vês o teu retrato quebrado pela idade. Já não corres nem tropeças, já não gritas e berras, agora cais e não te levantas. Um animal amestrado pelas palavras e imagens de hoje em dia.

“Olhem mais um de nós. Um animal feroz, sem dentes nem rugido.” – Dizem eles.

* Poema incluído no livro “Lua Morta”

s.m. Agradeço-lhe Miguel, em nome do Cultura, a sua disponibilidade e interesse pelo trabalho que este blogue tenta fazer a nível da divulgação artística e desejo-lhe muito sucesso nos seus projectos futuros.


quarta-feira, julho 25, 2007

Entrevista a Inês Leitão

Breve Biografia

Inês Leitão tem 26 anos, está a terminar o curso de Estudos Anglo-Americanos na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, trabalha, actualmente, numa instituição bancária e publicou, recentemente, o seu livro "Quarto Escuro".

Livro publicado pela LivrodoDia Editores (2007)

Blogue da Autora

Entrevista

sandra martins - Olá Inês. Em primeiro lugar quero dar-lhe os parabéns pelo blogue e pela publicação do seu livro “QuartoEscuro”. É um prazer imenso poder contar consigo aqui neste nosso cantinho. Esperamos que com estas questões os nossos leitores a possam vir a conhecer melhor e, quem sabe, para quem ainda não a leu, despertar o interesse para o seu trabalho literário.

s.m. Quando começou a escrever?

Escrevi num diário durante muitos anos…experimentei o jornal da escola que frequentei no 7º ano, ia escrevendo coisas para os amigos…sempre foi mais fácil para mim usar cartas, texto, para dizer às pessoas que gostava delas…essa era a minha primeira grande necessidade na escrita.

s.m. Actualmente a Internet é uma importante ferramenta na divulgação de todo o tipo de arte. O que pensa deste mundo? A criação do seu blogue com o título apelativo “bocadosdecarnepelasparedesdoquarto” foi anterior ou posterior ao desejo e publicação do seu livro?

O blogue foi a forma que encontrei de escrever. Ele começou a crescer a sério há dois anos, quando voltei de Moçambique. E fez sentido que crescesse porque houve evolução. A Internet é, e continuará a ser, uma poderosa ferramenta de divulgação: dá visibilidade a autores jovens e aumenta a procura e o interesse.

O blogue foi muito anterior ao livro. Sinceramente quando o Bocados foi criado, não havia a ideia do livro.


s.m. Como se sente perante as críticas dos seus leitores e críticos?

É muito fácil recebermos críticas quando não há nada em jogo. Tive muita sorte, tive o apoio e o incentivo de professores e colegas na faculdade, tive a sorte de lançar o livro no Correntes d´Escrita 2007. Existiram reacções profundamente particulares, estranhas até, de leitores que se aproximaram de mim pelo livro…porque de alguma forma o livro mexeu com eles.

s.m. Qual foi a sensação de ver o seu primeiro livro publicado? Trouxe mudanças na sua vida?

Eu tenho um livro publicado. Através do livro ganhei amigos-leitores. Essa foi a grande mudança.

s.m. Conte-nos que tal é a experiência dentro da barriga do monstro livreiro do nosso país.

Profundamente angustiante (lol)


s.m. Como surgiu o título do seu livro “QuartoEscuro”?

Foi difícil pensar num título para este livro. O Luís Cristóvão, o meu editor, ajudou-me a pensar. Decidimos “Quarto Escuro” porque fazia sentido. O livro em si, é de facto, um quarto muito escuro.


s.m. Fale-nos um pouco do seu livro, por favor.

É um livro particular, que fala de afectos, que faz pensar e que faz sentir. Um leitor disse-me que o fazia sentir frágil. Eu fiquei a pensar nisso muito tempo… Fazer alguém sentir, é uma coisa muito séria.

Quando falamos do “Quarto escuro”, estamos a falar de um livro pequeno, de leitura asfixiante, composto por micro narrativas.


s.m. Inês, considera mais complexo - escrever poesia ou prosa?

Eu sinto que o meu caminho é a prosa. Acho que ambos são caminhos muito pouco fáceis.


s.m. Teve formação académica em Escrita Criativa? O que pensa desta disciplina?

Não, não tive. Mas considero que seria interessante fazer um curso desse género…é bom conhecer e partilhar. E esses cursos têm habitualmente espaço para o conhecimento e para a partilha.


s.m. Em termos literários, acredita no termo "Inspiração", no termo "Transpiração" ou na sua simbiose?

Acredito profundamente na inspiração. Há coisas que se passam à minha volta que me fazem escrever. Sem elas, o bloqueio era profundo e não saberia dizer nada de novo.

E já sei distinguir perfeitamente um momento de inspiração: sei o que tenho a fazer quando o sinto.

s.m. Sente necessidade de organizar o seu tempo para escrever?

Sinceramente não tenho tempo para escrever. O bocadosdecarne ajuda-me a sentir que tenho de arranjar tempo, dê por onde der.


s.m. Como caracteriza o seu processo de escrita?

Como lhe disse. Nasce sempre por inspiração. E a minha inspiração surge das coisas mais estranhas que possa enfrentar ou reconhecer na rua, em casa, com as pessoas que me rodeiam. Vem sempre de algo ou de alguém. E depois a história toma rumo próprio na minha cabeça, as personagens crescem e o enredo nasce.

s.m. O seu livro foi editado pela LivrodoDia Editores. Como foi o processo?

Eu já conhecia o Luís Cristóvão da faculdade, ele era, e penso que ainda é, um leitor do blogue. Um dia ele disse-me que queria editar-me e eu gostei da ideia. (lol). Convidou-me a reunir alguns textos e a apresentar-lhos. Foi o que fiz, e em Fevereiro de 2007 o livro nasceu.

s.m. O que pensa das edições de autor?

Eu penso, e continuarei a pensar, que é fundamental o nome de uma editora.

s.m. Qual é a sua opinião em relação ao mundo editorial?

Poucos autores marginais publicados…devíamos ser mais. Deveríamos ser uma aposta constante.

s.m. Acha que o público, em geral, é mais sensível à poesia ou ao romance? E qual será a razão?

Penso que será mais sensível ao Romance…mas também vejo muita gente que precisa de poesia para respirar.

s.m. Já se aventurou no mundo dos concursos literários?

Sim. Concorri a um concurso de peças de teatro. E com muita pena não ganhei (lol)

Tenho 3 peças por editar: “Quem tramou António Lobo Antunes”, “A última história de Werther” e “Amor em estado Morto”. Trata-se de uma trilogia.

s.m. Que autores lê frequentemente?

António Lobo Antunes, Gonçalo M. Tavares, Henry Miller (um escritor que me é muito querido).

Sinto que me estou a apaixonar muito devagarinho por Lídia Jorge e por Ruben A.

s.m. Qual foi, até hoje, o(s) livro(s) e/ ou autor(es) que mais a marcaram? Porquê?

Muitos. Acho que o livro que mais me marcou foi o “Retrato de Dorian Gray” de Oscar Wilde; Milan Kundera “A insustentável leveza do ser” é também uma referência.

Sou viciada em Lobo Antunes desde os 19.

s.m. Qual é, na sua opinião, o/a artista português(a) – das mais variadas vertentes artísticas - que merece, da sua parte, maior admiração pelo trabalho desenvolvido para a divulgação da Cultura Portuguesa?

Eu acho que existem tantos…é injusto dar só um nome….

Mas Paula Rêgo, talvez. Escolho-a porque ela é o grande rosto da pintura portuguesa no estrangeiro, e é uma autora que transforma o grotesco, como eu nunca imaginei ser possível. Acho que ver uma pintura de Paula Rêgo, é ver cultura Portuguesa moderna no seu melhor.

s.m. Qual é a sua opinião em relação à forma como a Arte é vista no nosso país? E considera que o povo português demonstra um grande interesse pelas diversas formas artísticas nacionais e internacionais?

Acho que o sistema esquece a educação para a cultura. Aprende-se a gostar e a aprende-se a compreender. No ensino pré-escolar e primário não existe qualquer preocupação em explicar arte e mostrar arte às crianças. Indivíduos que não são expostos a movimentações culturais em criança, não o serão certamente em adultos. E isso é uma falhar gravíssima no nosso sistema. Espero que mude.

A nossa grande arma é a educação.

s.m. O que nos reserva para um futuro próximo, em termos de criação literária?

Gostava de publicar um conto infantil. Escrevi um conto quando vim de Moçambique, sobre a experiência que tive numa missão com crianças e adultos infectados com Sida na casa das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus. Foram possivelmente os meses mais completos e mais felizes que vivi. As ilustrações do conto estão quase prontas.

s.m. Que conselho daria a quem sonha melhorar o seu processo de escrita e, por fim, publicar?

Escrever muito, sempre, até se atingir um estilo único e uma forma própria.

É disso que se precisa.

s.m. Agradeço-lhe, Inês, em nome do Cultura, a disponibilidade e interesse pelo trabalho que este blogue tenta fazer a nível da divulgação artística e desejo-lhe muito sucesso.