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quinta-feira, julho 19, 2007

Entrevista a Paulo César


Paulo César despertou para o mundo da escrita muito cedo, aos 13 ou 14 anos. Actualmente, tem 28, um livro de contos editado sob o título "Desencantamentos" e um livro de poesia a caminho. Vamos conhecê-lo um pouco mais...

O 1º Livro publicado (Livro de Contos):

Entrevista:

Caro Paulo, é um enorme prazer poder contar consigo aqui no nosso Blogue. Esperamos que com estas questões os nossos leitores o possam vir a conhecer melhor e, quem sabe, para quem ainda não o leu, despertar o interesse pelo seu trabalho literário.

sandra martins – Que idade tem? Qual é/ foi o seu percurso académico? Qual é a sua profissão?

Paulo César - Tenho 28 anos. Acho que o meu percurso académico foi normal, sem grandes dramas nem brilharetes. Licenciei-me; sou nutricionista de profissão.

s.m. Quando começou a escrever?

P.C. Comecei a escrever aos treze ou catorze anos, não sei bem. Uns pequenos textos, dispersos, sem forma definida mas importantes na altura em que os escrevi.

s.m. Além do livro que apresentamos hoje aqui no Cultura já publicou e/ ou publica, actualmente, noutros suportes? (Quais?)

P.C. Não, nunca publiquei em nenhum outro suporte. Com excepção de uma revista amadora feita e publicada entre amigos, que infelizmente se extinguiu devido à falta de tempo.

s.m. Actualmente a Internet é uma importante ferramenta na divulgação de todo o tipo de arte. O que pensa deste mundo? Noto que não aderiu ao mundo dos blogues. Alguma razão em particular?

P.C. Sem dúvida. O poder da internet é enorme na divulgação das várias actividades artísticas e não tenho nenhum tipo de preconceito em relação à utilização desses meios. Não aderi ao mundo dos blogues porque acho que não tenho nada a dizer. A minha escrita não é propriamente um processo com resultados diários que possam alimentar um blogue. Se os conteúdos não fossem os meus próprios escritos não seria capaz de manter um blogue a falar sobre a minha escrita. Acho que é difícil fazer um site sobre um livro. Um livro é o que lá está escrito e para além de um ou outro comentário ocasional ou de uma entrevista eventual não há grande necessidade de falar sobre ele. Claro que seria uma forma importante de promover um livro mas confesso que não tenho qualquer vocação comercial… Se tivesse um agente que me gerisse a carreira seria ele a tratar disso, como o não tenho não tenho vontade de enveredar por esse caminho.

s.m. Com certeza já terá recebido boas críticas em relação ao seu trabalho literário. Como se sente perante as palavras dos seus leitores e críticos?

P.C. Não recebi muitas críticas e as que recebi, por virem de amigos, são necessariamente favoráveis. Se recebesse outras, dos leitores que compraram o livro, não seriam com certeza tão simpáticas. Gostava de as poder receber. Mas não me queixo das que tenho; mesmo parciais não deixam de ser agradáveis.

s.m. Qual foi a sensação de ver o seu primeiro livro publicado? Trouxe mudanças na sua vida?

P.C. É estranho ver um livro meu na estante de uma livraria. Imaginava-o, mas não esperava que me sentisse assim, com uma estranheza, com uma sensação difícil de descrever, nem boa nem má. Não trouxe qualquer mudança na minha vida, pelo menos ao nível do que é visível. Na minha vida “íntima” fiquei com a sensação de ter arrumado aquilo, aqueles textos, uma parte da minha vida, com uma estrutura que fica. É como se tivesse deixado de ter responsabilidade sobre os textos. Já não preciso de não os perder, de os compilar, de os tentar editar. Estão arrumados!

s.m. Conte-nos que tal é a experiência dentro da barriga do monstro livreiro do nosso país.

P.C. É uma experiência muito neutra. Fiz o livro e consegui que fosse publicado. Não me sinto dentro de um monstro com que tenho de aprender a lidar ou no qual tenho de saber conquistar um espaço meu. Não me preocupo com isso.

s.m. Como surgiu o título do seu livro?

P.C. Não tenho jeito para títulos. Nasceu por necessidade. O livro tinha de ter um nome e este fez sentido, porque é uma palavra que assenta bem em muitos dos textos. Para além disso é uma palavra bonita de ver escrita, desencantamentos, tanto à mão como a computador. E como o livro tem dois textos intitulados Encantamentos não me pareceu totalmente despropositado.

s.m. Descreve-o como um Livro de Momentos. Fale-nos um pouco de “Desencantamentos”, por favor.

P.C. Chamo-lhe um livro de momentos porque os textos tratam de momentos. Deveria ser um livro de contos, mas os contos contam uma história. Este livro é parado. Conta momentos e algumas sensações que lhes estão associadas. Quase sem história. Destas sensações gosto sobretudo da sensação de abandono, de perda, do gélido constatar de que a felicidade pode não ser tão fácil de atingir ou de manter. São doze textos, divididos em três capítulos: Contos de Fadas, Histórias de Abandono e Poço de Silêncio. Quase todas as histórias são histórias de encantar e simultaneamente histórias de abandono. Não felizes, mas não necessariamente tristes.

s.m. Uma vez que já tem experiência posso perguntar: considera mais complexo - escrever poesia ou prosa?

P.C. Prosa. A poesia é livre por natureza. A prosa mesmo que não seja executada como publicável precisa de ser legível. É importante que eu perceba o que lá está escrito, mesmo que seja eu o meu único leitor. Não se pode ignorar um mínimo de estrutura. A poesia é livre e auto-suficiente.

s.m. Teve formação académica em Escrita Criativa? O que pensa desta disciplina?

P.C. Não. Acho que a aprendizagem de escrita criativa nos pode ajudar a ter as ferramentas importantes para um trabalho. Mas acho que a criatividade não se pode ensinar. Não sinto que faça sentido, a menos que se encare a actividade literária como um trabalho, aí sim. Trabalha-se melhor, com maior correcção, suponho e maior sucesso. Mas como algo pessoal, íntimo ou como forma de expressão artística não faz sentido. Acho que a arte se pode construir com as mais débeis das ferramentas. Incomoda-me a ideia de se poder ensinar a escrever com criatividade (é pelo menos isto que a expressão escrita criativa me sugere).

s.m. Em termos literários, acredita no termo "Inspiração", no termo "Transpiração" ou na sua simbiose?

P.C. Mais uma vez depende do que é a escrita para o escritor. Se é trabalho acredito que a Transpiração é um meio muito válido para chegar ao resultado final e que poderá mesmo compensar de forma admirável uma Inspiração difícil. Pessoalmente e uma vez que a escrita é para mim uma necessidade acredito na Inspiração. Como necessidade que é se implicasse Transpiração acho que deixaria de escrever.

s.m. Sente necessidade de organizar o seu tempo para escrever?

P.C. Não o sei fazer. Sou desorganizado por natureza e infelizmente trabalho muito na minha vida profissional. Organizar o meu tempo para escrever era capaz de ser uma boa ferramenta para mim, mas não sei organizar tempos. E acho (preconceito!) que se reservasse uma fatia do meu tempo para a escrita sentava-me à secretária e não sairia nada. Gostava de escrever muito mais, mas não consigo.

s.m. Como caracteriza o seu processo de escrita?

P.C. Uma necessidade. Uma vontade de escrever que pode aparecer em qualquer local e em qualquer momento que aprendi a refrear por óbvias razões profissionais. É um prazer por vezes doloroso. Uma actividade solitária. E implica sempre papel, muito papel e uma caneta de tinta permanente. Para piorar a minha eficiência de escrita não sei escrever directamente ao computador.

s.m. O seu livro foi editado pela Corpos Editores. Como foi o processo?

P.C. O processo foi muito simples. Conheci uma autora publicada pela Corpos. Adquiri o livro dela e senti curiosidade em visitar o site da editora. Encontrei por lá a informação de que era possível enviar os textos por email e que seria possível responderem em cerca de um mês. Achei piada à ideia, que seria interessante saber o que diriam. Assim fiz. Mandei o projecto inicial do livro, responderam a dizer-me que era pequeno demais, juntei então alguns textos e pronto, disseram-me que sim e aqui está o livro publicado.

s.m. O que pensa das edições de autor?

P.C. Acho que são uma forma de colocar à disposição dos leitores obras que poderiam de outra forma ficar para sempre na gaveta. Por isso ainda bem que existem. Mas exigem da parte do autor um pensamento virado para a parte comercial. Porque é sempre necessário perder tão pouco dinheiro quanto possível. É preciso que se esteja disposto a dedicar algum esforço a pensar nessa vertente.

s.m. Qual é a sua opinião em relação ao mundo editorial?

P.C. Parece-me um mundo um pouco cruel, que vive bastante de modas e em que nem sempre é dado o verdadeiro valor ao conteúdo do que se publica. Mas toda a vida é construída assim, não creio que o mundo editorial seja pior do que qualquer outro dos mundos que frequentamos ao longo da vida.

s.m. Acha que o público, em geral, é mais sensível à poesia ou ao romance? E qual será a razão?

P.C. Ao romance. É mais fácil de ler. Existe uma história o que é uma importante componente do entretenimento. É fácil o leitor ser levado por uma boa história ao ponto de devorar um livro de uma ponta à outra. Um livro de poesia é diferente. É preciso ler aos poucos, permitir pausas para se transpirar bem o que se acabou de ler. Para além disso tem aquela maçada das coisas pessoais, dos sentimentos que não estamos preparados para ler, porque neles podemos reconhecer os nossos – algo universalmente reconhecido como verdadeiro incómodo.

s.m. Paulo, já se aventurou no mundo dos concursos literários?

P.C. Sim, participei em um ou dois, sem sucesso nenhum.

s.m. Que autores lê frequentemente?

P.C. Vários, leio de tudo e releio o que me mais me agrada. Destaco António Lobo Antunes, José Saramago, Mia Couto, Al Berto, Raul Brandão e Mário de Sá-Carneiro.

s.m. Qual foi, até hoje, o(s) livro(s) e/ ou autor(es) que mais o marcaram? Porquê?

P.C. Alguns dos meus livros favoritos: O Medo – Al Berto; Drácula – Bram Stoker; Poemas Completos – Mário de Sá-Carneiro; Terra Sonâmbula – Mia Couto; Todos os Nomes – José Saramago. O livro que realmente mais me marcou foi A Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore de Raul Brandão. Foi uma leitura violentíssima da minha adolescência que me pôs em contacto com uma forma de ver o mundo que me diz muito, com os pequenos dramas pessoais, com a mesquinhez e com a felicidade de possuir algo imaginário e onírico a que nos poderemos agarrar quando tudo o resto falhar, porque falhará certamente. Gosto dessa sensação de impotência perante a vida, de pequenez… Mas há outros livros do mesmo autor de que gosto particularmente: Húmus e O Avejão.

s.m. Qual é, na sua opinião, o/a artista português(a) – das mais variadas vertentes artísticas - que merece, da sua parte, maior admiração pelo trabalho desenvolvido para a divulgação da Cultura Portuguesa?

P.C. Creio que José Saramago pela dimensão da sua obra e do seu prémio. Pena é que para que tal aconteça alguns fiquem mais remetidos à sombra como o António Lobo Antunes ou que outros como Al Berto, Fernando Pessoa ou Vergílio Ferreira por já terem morrido não possam alcançar maior visibilidade.

s.m. Qual é a sua opinião em relação à forma como a Arte é vista no nosso país? E considera que o povo português demonstra um grande interesse pelas diversas formas artísticas nacionais e internacionais?

P.C. Creio que o povo português não se habituou ainda a conviver com a Arte. Mas felizmente o panorama começa a alterar-se. Existe hoje uma grande oferta cultural que está extremamente disponível a quem dela quiser usufruir. É um começo. Falta depois a educação que permitirá maior exigência na escolha mas que só poderá vir depois. Há muitos espectáculos. A qualidade de muitos deles é duvidosa. Mas acho que é bom que as pessoas se habituem a ver. Mesmo os maus espectáculos. Só com a habituação poderá vir a escolha consciente do que se quer mesmo ver.

s.m. O que nos reserva para um futuro próximo, em termos de criação literária?

P.C. Tenho um livro de poesia preparado que enviei para um daqueles concursos literários de que falei atrás. Não sei o que espero. Talvez coragem para o submeter à consideração de uma editora para publicação. Não sei. É complicado o processo de envio. Há uma espécie de inércia que me torna fisicamente dolorosa a acção de anexar ao texto de email o documento e de o enviar.

s.m. Que conselho daria a quem sonha melhorar o seu processo de escrita e, por fim, publicar?

P.C. Não sei se serei grande conselheiro mas acho que o importante é escrever. Quilómetros de linhas, resmas de papéis ou infindáveis documentos de texto (para os não conservadores). Escrever é o fundamental. E nos intervalos (necessários; escrever também cansa) ler, ler muito.

s.m. Escolha, por favor, um excerto da sua obra e transcreva-o para os leitores do Cultura poderem ter uma antevisão do seu livro.

P.C. São também as articulações que se deformam e as mãos que começam, há dias piores do que os outros, a atrapalhar mais do que a ajudar, é a casa que já não está tão limpa como antigamente, todas as salas fechadas com os móveis cobertos por lençóis, que é por causa do pó, só o quarto, a cozinha e a casa de banho estão abertas, para uma mulher só chegam perfeitamente, nem era preciso tanto, é a roupa preta a envelhecer, a ficar esbranquiçada pelo uso e pelas lavagens consecutivas, o cabelo branco que vai cheirando a ranço porque já não se atreve a lavar a cabeça, com medo das constipações, e se uma constipação se agrava nesta idade uma pneumonia é o cabo dos trabalhos, e o resto, os problemas de bexiga que lhe vão impregnando o corpo e a roupa com um cheiro a urina. À noite a solidão exagera-se, no silêncio da casa vazia, meio fechada, com os móveis cobertos de lençóis brancos, a parecerem fantasmas. Mas não são estes que a assustam mais, são os outros, as suas recordações, a idade a assombrá-la nas horas que leva até lograr dormir, naquela tremideira constante, a presença permanente da noção de que a morte pode aparecer a qualquer momento a levá-la, tem medo, não sabe o que a agarra à vida mas não quer morrer, disso tem a certeza. De terço na mão passa as infindáveis horas a rezar em frente a um cristo de marfim crucificado numa cruz negra de pau-santo com incrustações de madrepérola. O cristo de marfim pintado sangra tinta das cinco chagas e não lhe responde, suspenso da cruz permanece de olhos fechados, talvez não a oiça. Só assim consegue esperar algum sono, os medos desvanecem-se ao desfiar a mesma ladainha vezes sem conta até lhe pesarem as pálpebras e tomar o sentido da cama, dos lençóis, dos cobertores e do travesseiro e não pensar, nem sonhar, até o sol lhe entrar pelo quarto manhã cedo.


s.m. Agradeço, em nome do Cultura, a sua enorme disponibilidade, a sua simpatia, a humildade e o elevado interesse pelo trabalho que este blogue tenta fazer a nível da divulgação artística e desejo-lhe muito sucesso e inspiração.

quinta-feira, julho 12, 2007

Entrevista a Hugo Cabelo


Hugo Cabelo, natural de Lisboa, tem 26 anos, um livro publicado com o título fascinante "Enxerto Excerto" e uma relação profunda com as palavras. Vale a pena conhecê-lo melhor...

1º Livro Publicado "Enxerto Excerto"

Entrevista:

É um imenso prazer poder contar com as suas palavras aqui no nosso Blogue. Esperamos que com estas questões os nossos leitores o possam vir a conhecer melhor e, quem sabe, para quem ainda não "o" leu, despertar o interesse para o seu trabalho literário.

sandra martins – Que idade tem? Qual é/ foi o seu percurso académico? Qual é a sua profissão?

Hugo Cabelo – Tenho 26 anos, completei o 12º e neste momento sou técnico de informática.

s.m. Quando começou a escrever?

H.C. – Comecei a escrever “a sério” a partir dos 15, encontrei uns escritos mais antigos dos quais não me lembrava, não sei onde os colocar cronologicamente, não me lembro sequer de os ter escrito, mas a letra é minha. O marco foi mesmo os 15.

s.m. Além do livro que apresentamos hoje aqui no Cultura já publicou e/ ou publica, actualmente, noutros suportes? (Quais?)

H.C. – Costumo enviar alguns poemas a amigos por e-mail, ponho outros no meu blog, no myspace, no site luso-poemas e no site varanda das estrelícias e talvez noutros que agora não me lembro.

s.m. Actualmente a Internet é uma importante ferramenta na divulgação de todo o tipo de arte. O que pensa deste mundo? A criação destes suportes foi posterior ou anterior à publicação do seu livro?

H.C. – Neste momento a internet está cheia de informação; saturada. Muitas vezes é difícil achar o que buscamos, no entanto há novas oportunidades, novas maneiras de expor trabalhos que antes não existiam. Como tudo tem o seu lado negativo e positivo, depende do uso que lhe derem. Eu acho que é uma ferramenta importante que reúne a potencialidade de todos os outros tipos de media que conhecemos assim como a possibilidade de encontro de pessoas interessadas num determinado assunto com importantes pontos de vista diferentes (uma vez que reúne gente de todo o mundo, o que implica diferentes culturas). É portanto uma ferramenta de expansão. Relativamente ao meu trabalho foi publicado posteriormente a este “boom” e foi o que me permitiu publicá-lo.

s.m. Com certeza já terá recebido boas críticas em relação ao seu trabalho literário. Como se sente perante as palavras dos seus leitores e críticos?

H.C. – Recebi umas poucas e pouco objectivas, mas é sempre gratificante uma crítica positiva (ainda não recebi nenhuma negativa... cá me estou a preparar).

s.m. Qual foi a sensação de ver o seu primeiro livro publicado? Trouxe mudanças?

H.C. – A primeira sensação foi de euforia, porque já tinha tentado antes (concursos, editoras, etc.), mas depois tornou-se um processo penoso (pelo menos no meu caso) e demorado. Uma vez que a editora do meu livro é do Porto não houve um acompanhamento tão próximo como queria. Sou extremamente controlador, aliás, umas das primeiras perguntas que fiz à editora foi se tinha também o controlo artístico da capa (felizmente recebi um sim). As mudanças são ainda muito subtis, mas existem! Estou a deixar passar um tempo nem sei bem para quê, talvez para a obra se fixar onde quer que seja o seu lugar. Estou ansioso por editar outro, mais organizado, tenho muito material espalhado pelo quarto.

s.m. Então aventurou-se no mundo dos Concursos Literários...
H.C. – Sim, o meu primeiro foi na escola Ferreira de Castro em Oliveira de Azeméis do qual recebi uma menção honrosa (deve ter sido pelo exagero uma vez que enviei quatro livros se não me engano. Concorri também ao prémio de poesia Cesário Verde realizado pela Câmara de Oeiras (mais perto de onde vivo, o meu Concelho).

s.m. Conte-nos que tal é a experiência dentro da barriga do monstro livreiro do nosso país.

H.C. – Não foi! Acho que ainda não me apercebi do que se está a passar, se é que se está a passar alguma coisa.

s.m. Como surgiu o título do seu livro “Enxerto Excerto”?

H.C. – Até este momento estava no segredo dos deuses... Este livro foi compilado com excertos da minha obra pessoal para o concurso Cesário Verde e é um enxerto de mim, nada mais simples. Há outras “forças” na escolha do título, nomeadamente o jogo das duas palavras semelhantes, há também outros significados que vou atribuindo ou desmistificando em diferentes alturas. Muitas vezes não são tão simples como a explicação anterior.

s.m. Fale-nos um pouco da sua obra.

H.C. – Não sei bem como responder a esta, talvez a possa definir como poesia catártica. Cada um interpreta de maneira diferente, não quero condicionar essa interpretação.

s.m. O que considera mais complexo - escrever poesia ou prosa?

H.C. – Numa música de Wordsong Pessoa (Uma Nova Espécie de Santo) ouve-se repetidamente: “Só a prosa é que se emenda (...) Nós não falamos em prosa, falamos em verso, em rima (...) falamos sim em verso, em verso natural”. Comparando o meu processo com aquele que acho que é o processo da prosa, acho a poesia penosa em termos de sentimento, talvez a escrita da prosa também o seja. Hoje em dia não há aquela regra rígida do soneto e outras formas, nem necessidade de rima. Acho que ambos são complexos, talvez de maneiras diferentes.

s.m. Teve formação académica em Escrita Criativa? O que pensa desta disciplina?

H.C. – Não tive. O que penso, bem, para algumas pessoas deve resultar. O meu processo criativo é diferente, não é imposto, surge, aliás, urge, grita em mim e tenho que o vomitar. Se me fosse proposto um tema teria que ser um com o qual tenho alguma afinidade e que me provoque.

s.m. Em termos literários, acredita no termo "Inspiração", no termo "Transpiração" ou na sua simbiose?

H. C. – Sim, acredito. Talvez a minha definição desses termos seja diferente.

s.m. Sente necessidade de organizar o seu tempo para escrever?

H.C. – Acho que não conseguia marcar horas na minha agenda para escrever, não o faço como uma rotina, é um impulso, uma necessidade, não é raro refugiar-me numa casa de banho sossegada para escrever, preciso de me retirar. Se estiver num sítio apinhado de gente, então recorro ao que me pode dar mais privacidade... neste caso o privado. Eu sei que é uma ideia um pouco perturbante até, mas é a minha urgência em escrever que me faz tomar essa atitude. Se não conseguir “fugir” para lado nenhum não tenho problemas em sacar do meu bloco e caneta (que me acompanham para todo lado) e desatar a escrever, às vezes até em transportes públicos. As palavras gritam no meu cérebro, há dias em que a tempestade de sinapses é tão grande que acho que se tivesse oportunidade de ficar num quarto fechado por um dia escrevia um livro de uma assentada só.

s.m. Como caracteriza o seu processo de escrita?

H.C. – Urgente, gritante, fisiológico.

s.m. O seu livro foi editado pela Corpos Editores. Como foi o processo?

H.C. – Não tive cérebro para analisar o processo, foi um pouco estranho, tanto as coisas corriam a mil como estagnavam. Andei entre os pólos da ansiedade e a total calma. Em relação à Corpos, na altura brami aos céus pela oportunidade, mas também os condenei, por mera culpa minha. Não me apercebi que seria considerado uma edição de autor, nunca me foi apresentado como tal. Espero que a editora cresça e invista na distribuição e apoio aos autores e na divulgação. Com os meios que têm já fazem muito, mas precisam fazer mais, desenvolver os meios para isso, crescer. Ou talvez não seja esta a filosofia da Corpos.

s.m. O que pensa das edições de autor?

H.C. – Depende da intenção do autor. Se eu quiser editar um livro para familiares e amigos é uma boa solução. Se o autor quer editar e não encontra outra forma, então ainda bem que existe este tipo de edição.

s.m. Qual é a sua opinião em relação ao mundo editorial?

H.C. – Esta é meramente a minha opinião e talvez mude um dia, mas para mim é um mundo de cunhas, assim como tudo. Infelizmente é assim que vejo. Depois temos as brechas, onde outras oportunidades espreitam, em que se luta e por vezes se consegue.

s.m. Acha que o público, em geral, é mais sensível à poesia ou ao romance? E qual será a razão?H.C. – Em geral, romance, sem dúvida. É mais objectivo, sequencial, contínuo... A poesia é mais subjectiva, isto deve fazer alguma confusão. Também há romances complicados!

s.m. Que autores lê frequentemente?

H.C. – Não sei! Sinceramente.

s.m. Qual foi, até hoje, o(s) livro(s) e/ ou autor(es) que mais o marcaram? Porquê?

H.C. – Esta é difícil, puxa pela memória, espero não ser injusto comigo e com os livros que amo: "Ensaio Sobre a Cegueira", José Saramago – Porque me arrepiou na primeira página e o desenrolar não decepcionou. "Cão Como Nós" – Manuel Alegre – Foi o primeiro livro a fazer-me chorar ao ponto de não conseguir ver as letras do livro (ainda por cima no autocarro!!!) "A Espuma dos Dias" – Boris Vian – Simplesmente surreal!"1984" e "O Triunfo dos Porcos" – George Orwell – Uma visão do que pode acontecer, de como pode acontecer. Uma chamada de atenção."Os Cavalos Também se Abatem" – Horace Maccoy – Este não vou justificar, gostei, pronto!E fiquemos por aqui.

s.m. Qual é, na sua opinião, o/a artista português(a) – das mais variadas vertentes artísticas - que merece, da sua parte, maior admiração pelo trabalho desenvolvido em prol da Cultura Portuguesa?

H.C. – Todos os que conseguem fazer chegar uma mensagem importante às massas.

s.m. Qual é a sua opinião em relação à divulgação da Arte em Portugal? E considera que o povo português demonstra um grande interesse pelas diversas formas artísticas nacionais e internacionais?

H.C. – Ainda há muito a fazer, como em tudo no nosso querido Portugal, acho até que regredimos um pouco ou então tenho uma ideia romântica dos tempos idos. Penso também que desvalorizamos os nossos e damos mais importância ao internacional. Basta ver a necessidade que muitos dos nossos artistas têm em vingar lá fora.

s.m. O que nos reserva para um futuro próximo, em termos de criação literária?

H.C. – Não sei, eu sou muito negativo, espero que esteja completamente errado, mas tudo é um pouco turvo.

s.m. Que conselho daria a quem sonha melhorar o seu processo de escrita e, por fim, publicar as suas palavras?

H.C. – Não tenho nenhum conselho específico. Quem escreve com sentimento segue-se a si mesmo, procura; o resto depende da resistência do indivíduo. É exasperante, mas talvez valha a pena.

s.m. Escolha, por favor, um excerto/poema da sua obra e transcreva-o para os leitores do Cultura poderem ter uma antevisão do seu livro.

H. C. Vou escolher um fora do livro que neste momento me diz mais que os que estão publicados:

Vermelho

Em mim e no que me enleia
É tudo vivo, vermelho.
De um sangue tão vivo
Que tudo e todos permeia.

Um vermelho sujo de ira,
Preenchido de raiva
Que apanhei por aí.
Nasce em mim o Sol.

Põe-se em mim o Sol
E o vermelho é vivo,
Tudo é vivo aqui,
Em mim e ao meu redor.

De um vermelho tão doce!
E tão fogoso também!
Como se todo eu tivesse sido posto a arder
E todo eu sou, de repente,
Um sagrado coração.

Nada... Nada...
Nada!
Nada disto sou,
Sou tudo, menos isto!
Isto, emano, irradio.

Acabo por encontrar diminuto
Em evidência por se destacar de tudo
Um quase nada;

E um pouco mais de nada
Eu seria o vazio!

Hugo Cabelo, 17/04/2007

s.m. Publicarei aqui, ainda, um outro do seu livro "Enxerto Excerto":

Olhar Incerto

Resgato memórias de papel rasgado
Tanta utilização, múltiplos significados.
Lembro-me ainda que pode ser errado,
Mas sinto o momento, apesar de passado.

Resgato cada movimento lento
Principalmente nos que me tocaste
Sem intenção; permanece a dúvida.

Nada pode acontecer,
Mas sou tentado
A tentar perceber
Que se tentasse
Poderia receber
De ti, todo o amor
Que busco e sonho.

Cair em malhas de amor secreto.
Talvez não seja um poema de amor
Estou de coração rasgado e aberto
E despejo em letras fingidas de temor,
Escritas a medo sem rasuras
Porque escrevo com intenções puras.

Acredita em cada palavra
Escrita quase a bruto sangue
Que te amo de verdade
E se não é esse sentimento
De ouro e prata
Então não sei o que sinto
E acho-me desafortunado
Por nunca ter amado.

Hugo Cabelo

s.m. Agradeço, em nome do Cultura, a sua simpatia extrema, a sua disponibilidade e interesse pelo trabalho que este blogue tenta fazer a nível da divulgação artística e desejo-lhe muito sucesso e inspiração.

Mais Sobre o Autor

terça-feira, julho 10, 2007

Entrevista a David Miranda

O autor apresenta, no corpo da entrevista, sites e blogues onde podem encontrar mais informações sobre ele.

Biografia:

David Miranda, actualmente com 21 anos, frequentou a Escola Preparatória Dr. Vasco Moniz até ao 9º ano e a Escola de Formação Profissional de Alverca completando um curso de formação profissional de nível III na área de electrónica e cinzelando aí, com a ajuda da professora de Língua Portuguesa do 11º ano, a paixão pela escrita que podemos encontrar, para já, no livro de poesia recentemente publicado - Pedras Rubras. Vamos conhecê-lo um pouco mais...

O 1º Livro de Poesia:
Entrevista:

sandra martins - Olá David. É um imenso prazer poder publicar, aqui, as suas palavras. Uma vez que mostrou bastante interesse na divulgação do seu livro posso perguntar-lhe: Como é a relação com os seus leitores e críticos? Como é o feedback?

David Miranda – Apesar de a edição do meu livro não ter sido muito grande, posso dizer que tenho recebido comentários muito bons, e algumas críticas que me têm ajudado a crescer literariamente. Tenho recebido comentários de várias pessoas ligadas à literatura, mais especificamente à poesia que têm me deixado muito satisfeito. Especialmente porque os comentários reflectem a mensagem que quero passar.

s.m. Que idade tem? Qual é/ foi o seu percurso académico? O que lhe ocupa a maior parte do tempo?

D.M. – Eu tenho 21 anos. O meu percurso académico foi curto, frequentei a escola preparatória Dr. Vasco Moniz até o 9º ano e depois passei a frequentar a escola de formação profissional de Alverca, onde completei um curso de formação profissional de nível III na área de electrónica.

Infelizmente muito do tempo é ocupado pelo trabalho e o pouco tempo que resta tento usá-lo tanto para estar com as pessoas que me acompanham nesta caminhada pela vida como para desenvolver a minha paixão pela escrita. Algum desse tempo é também gasto no grupo de poesia “Gente Viva” do qual faço parte como um dos membros fundadores.

s.m. Quando começou a escrever?

D.M. - Comecei a escrever com 13 anos no entanto nessa altura achava que não tinha jeito para escrever e acabava por deitar fora quase tudo o que escrevia. Apenas ficando com muito pouco. Foi por volta dos 15 anos que comecei a escrever mais empenhadamente e a guardar o que escrevia, pois para além de a escrita nessa altura ser o meu refúgio, era ali que me sentia bem, era quase uma amiga a quem contava tudo, onde colocava tudo o que me ia na alma, eu comecei a mostrar o que escrevia a pessoa mais velhas e demonstraram interesse. Devo muito de ter este livro a minha professora de português do 11º ano pois foi ela que me incentivou a continuar e buscar o meu sonho porque escrevia bem. Foi também ela que me ajudou a melhorar muito daquilo que escrevia.


s.m. Além do livro Pedras Rubras já publicou e/ ou publica, actualmente, noutros suportes? Em caso afirmativo, poderá revelar aos nossos leitores quais?

D.M. Neste momento utilizo alguns lugares na Internet para ir deixando os meus textos e também ir recebendo algum feedback. Um desses espaços é www1.fotolog.com/momento_das_asas.


s.m. Actualmente a Internet é uma importante ferramenta na divulgação de todo o tipo de arte. Terá o David um sítio pessoal onde os seus leitores podem acompanhar a sua evolução? O que pensa deste mundo? A criação destes suportes foi posterior ou anterior à publicação do seu livro?

D.M. Acho que a Internet é um excelente meio de divulgação do trabalho de autores novos, tenho tido o privilégio de encontrar pessoas com um escrita impressionante e que poucos conhecem. Acredito que cada vez mais a Internet quando bem utilizada é uma ferramenta muitíssimo valiosa para a divulgação e para a partilha de opiniões e até para o aprimoramento de quem a usa para partilhar a sua obra. No entanto a Internet também é muitas vezes usada para fazer plágio de textos com muito valor por parte de pessoas que não amam a literatura, isso é triste.

Eu criei após o lançamento do livro uma página para o mesmo (http://pedrasrubras.com.sapo.pt/), bem como mais alguns espaços, sendo o http://www1.fotolog.com/notas_d_silencio o primeiro espaço que abri, intercalando um pouco a poesia com as fotos pois é outro mundo que me fascina foi um espaço que me trouxe muitas coisas boas, existe uma grande evolução desde o início até o final. Depois desse abri mais dois espaços que tento manter actualizados, www1.fotolog.com/momento_das_asas e http://sunrainslife.blogspot.com/ .


s.m. O seu livro pertence ao género Conto, Poesia ou Romance?

D.M. O meu livro é de poesia, embora já tenho começado a escrever algo mais dentro de outro género.


s.m. Qual foi a sensação de ver o seu primeiro livro publicado? Trouxe mudanças?

D.M. A sensação é sentir que realizamos o nosso maior sonho e ao mesmo tempo é ter a pesada mas muito satisfatória sensação que aquilo que escrevemos vai ser lido por várias pessoas e pode até fazer diferença na vida delas. Quando soube que iam editar o livro, fiquei uns minutos a tentar perceber se tudo aquilo era realidade, foi sentir tudo em mim estridente sentir que o meu sonho ia se realizar. Acho muito difícil conseguir falar sobre como foi agarrar o meu livro pela primeira vez, foi como se o sonho tivesse forma agora.

Trouxe-me muitas mudanças, a nível literário e até pessoal. A nível literário o facto de ter um livro levou-me a começar a encarar a escrita ainda com mais seriedade, a senti-la mais, escolher melhor as palavras ao mesmo tempo que deixo as coisas fluírem. A nível pessoal fez-me ver a escrita como uma forma de tocar pessoas e um meio de me pôr no lugar delas. Percebi que podia usar a escrita para muitas vezes lembrar as pessoas de muitas coisas importantes que elas se esquecem com o dia a dia.

s.m. Conte-nos que tal é a experiência de ser um autor totalmente integrado no mercado livreiro do nosso país.

D.M. É muito bom. O facto de chegar a um lugar e ver lá algo nosso é fantástico, mas o melhor é mesmo saber que podemos chegar a mais pessoas. É algo único quando conhecemos ou falamos com alguém que está longe mas que leu o que escrevemos e que se identificou e que sentiu o que escrevemos.

s.m. Como surgiu o título Pedras Rubras?

D.M. Pedras Rubras surgiu de alguns factores, o primeiro eu tenho uma grande paixão pela geologia daí o “Pedras” e sendo as pedras algo que pesa, a ideia era passar que o livro estava carregado de sentimentos, tinha conteúdo. O “Rubras” vem de estar ao rubro, estar incandescente, ser intenso. Ou seja o livro seria carregado de intensidade.


s.m. Fale-nos um pouco da sua obra.

D.M. O meu livro foi escrito numa altura bastante complicada a nível emocional, são sempre as melhores alturas para escrever. Foi escrito quase todo durante os meus 16 anos e um pouco de toda a confusão que passa pela cabeça de uma pessoa nessa idade, os desgostos, a revolta com o mundo, muitas vezes a solidão mesmo quando existem muitas pessoas à volta. Dando sempre no final a forte convicção de que podemos vencer tudo o que nos propusermos e esperança de mudança.


s.m. Vou arriscar a pergunta: o que considera mais complexo - escrever poesia ou prosa?

D.M. Acho que depende muito daquilo que desejamos obter. Se queremos um texto de prosa pequeno e para passar uma mensagem, é mais fácil. No entanto escrever um livro em prosa, construindo toda a interligação entre os textos, isso é muito mais complicado do que escrever poesia. Para mim escrever poesia é deixar fluir o que me vai na alma, inspirando me em tudo o que me rodeia, especialmente a natureza e as pessoas e acaba por sair naturalmente.


s.m. Teve formação académica em Escrita Criativa? O que pensa desta disciplina?

D.M. Não tive formação em escrita criativa, é um pouco complicado falar de algo que não presenciei, no qual não tive ainda contacto mas penso pelo pouco que investiguei que poderá ser de ajuda tendo o senão de na minha opinião limitar um pouco a criatividade por ter padrões para ser dada.


s.m. Algum dia se aventurou no mundo dos Prémios Literários?

D.M. Não mas espero durante este ano participar em alguns concursos literários.


s.m. Em termos literários, acredita no termo "Inspiração", no termo "Transpiração" ou na simbiose?

D.M. Acho que a escrita deve ser natural e nunca forçada, deve vir da alma sem nenhuns ferros a puxa-la. Existem alturas que passo semanas sem escrever nada porque não encontro algo que desperte em mim a escrita. Não sou capaz de “escrever por encomenda”, talvez por não estar preparado para isso, talvez por achar que as coisas quando não saem por elas mesmas, são artificiais…

s.m. Sente necessidade de organizar o seu tempo para escrever?

D.M. Raramente. Trago quase sempre um bloco e uma caneta comigo, e quando não trago utilizo o telemóvel como gravador e mais tarde escrevo. Escrevo quase em qualquer lado, basta surgir um pouco de tempo e inspiração. Embora também existam alturas em que preciso mesmo de tempo para escrever, preciso de escrever e torna-se quase uma necessidade e aí organizo o meu tempo de forma a poder escrever.


s.m. Como caracteriza o seu processo de escrita?

D.M. Simples, impulsivo, pensado, sentido, a cada dia diferente.

s.m. O seu livro foi editado pela Corpos Editores. Como foi o processo?

D.M. O processo foi simples, entrei em contacto com eles através de e-mail, depois pediram-me para enviar alguns textos e esperei pela resposta. Mais tarde depois de me terem dado o sim, enviaram me uma versão do livro já organizado, aí foi tratar alguns pormenores e esperar por ele. São pessoas muito competentes e devo muito a eles o facto de ter continuado a escrever, agarram-me quando estava quase a desistir do sonho.


s.m. O que pensa das edições de autor?

D.M. São a forma mais fácil de se conseguir publicar um livro, especialmente se for de poesia e não formos conhecidos. Embora tenha alguns custos e que no caso de algumas editoras são bastante elevados.

s.m. Qual é a sua opinião em relação ao mundo editorial?

D.M. Acho que muitas vezes se dá mais valor ao que vende do que ao que é cultura. Não se valorizam os novos autores que têm valor só porque são jovens e não são conhecidos. Espero que as coisas mudem, e acredito que vão mudar, já existem algumas editoras que fazem por ser diferentes, isso dá-me esperança.

s.m. Acha que o público, em geral, é mais sensível à poesia ou ao romance? E qual será a razão?

D.M. O público reage mais ao romance, talvez por ser uma leitura mais fácil, menos rebuscada e também por ter uma história que vai envolvendo mais a pessoa. A poesia é mais uma escrita de paixão, de alma, de quem quer sentir as coisas mais profundamente.

s.m. Que autores lê frequentemente?

D.M. Não costumo ler muito frequentemente devido ao tempo ser um pouco escasso, no entanto gosto de ler Paulo Coelho, Fernando Pessoa, António Gedeão, Miguel Torga, Daniel Sampaio entre muitos outros que vou lendo aos poucos.

s.m. Qual foi, até hoje, o(s) livro(s) e/ ou autor(es) que mais o marcaram? Porquê?

D.M. O Livro Filhos da droga de F, Christiane. Todo o drama vivido na primeira pessoa.


s.m. O que nos reserva para um futuro próximo, em termos de criação literária?

D.M. Espero ainda este ano lançar o segundo livro de poemas, mais maduro, menos intenso mas mais tocante penso eu. E no futuro espero acabar o meu romance, mas esse ainda é para demorar bastante tempo.

s.m. David, que conselho daria a quem sonha melhorar o seu processo de escrita e, por fim, publicar as suas palavras?

D.M. Nunca deixar de lutar e acreditar sempre. Procurar sempre ajuda de pessoas mais experientes, acreditar é meio passo para conseguir.


s.m. Escolha um excerto/ poema do seu livro com que nos presentear e transcreva-o, por favor.

D.M.

Do som estridente,

Saltam pedaços da minha mente!

Rebentam da caneta,

Mergulhados na paisagem…

São pedaço demente!

Que suspiram intensidade…

Não se deixam estar na miragem

Rasgam intensidade, como uma folha estreita,

Papel fustigado pela saudade!

Em cada traço, o veneno espreita

Sentido em emoção que corta o coração…

Cru e cruel leva nela recordação.

Grito a língua e tudo o que me sufoca

Por entre as notas que o mundo vira

Atira contra mim como troca,

Troca de um estado de inconformismo!

Sinto os pequenos mundos,

Como uma música tocada em pano de fundo

Sobrepondo a razão que toca alto

Moldam o som como as margens de um rio

Para no final tudo se mostre grande ou banal…

Por mais que escondamos a melodia,

Ela guarda sempre um fio…

Nunca deixa de correr e sempre volta à luz do dia…

Aí descanso e sonho mais uma melodia…

Muito obrigado, David, pelas suas palavras e pelo seu desejo em ser entrevistado pelo Cultura. Desejo-lhe muito sucesso no futuro.

quarta-feira, junho 13, 2007

Pedro Chagas Freitas














Site do Autor

Blogue Pessoal

Pequena Biografia

Pedro Chagas Freitas é licenciado em Linguística pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e tem já, entre outras obras de ficção, biografias e textos de especialidade em diversas áreas. Venceu vários prémios literários, entre eles a Bolsa Jovens Criadores 2006 e o Prémio Paul Harris 2000.
Como jornalista já trabalhou em "A Bola", "DN Jovem" e "Inside". Escreve guiões para cinema e banda desenhada e escreveu obras biográficas para os grupos Impala e Mediapromo. É revisor linguístico e consultor criativo para empresas e particulares. É, ainda, cronista de humor na publicação Rede 2020 e no site "Empreender" e de ficção no jornal "Notícias de Guimarães". Coordena, também, sessões de escrita criativa. Mas vamos conhecê-lo um pouco melhor...

Livros Editados

Mata-me da Corpos Editores
O Evangelho da Alucinação da Corpos Editores
Já Alguma Vez Usaste o Sexo sem Necessitares de Usar o Corpo da Corpos Editores
Os Dias na Noite da INDIEbooks


Entrevista

sandra martins - Olá Pedro. É um imenso prazer poder contar com as suas palavras aqui no nosso Blogue. Noto que é bastante dedicado ao mundo da divulgação artística e à interacção com os leitores e futuros escritores do nosso país, posso perguntar-lhe como é a relação com os seus leitores e críticos?

Pedro Chagas Freitas – Agradeço-lhe, antes de mais, o convite que me expressou; é uma honra estar aqui neste espaço extremamente interessante no campo da divulgação artística. Depois, e respondendo à sua questão, só poderei afirmar que, de facto, procuro ter uma relação o mais próxima possível com os meus leitores. Recebo-os de braços abertos e tento, compreendendo o quão importante isso pode ser em dados momentos, auxiliá-los da melhor forma que consigo.

Por outro lado, e como o feedback é, sempre, algo de muito importante sob o meu ponto de vista, constituí, ao longo do tempo, aquilo que costumo chamar de “Conselho de leitores”, que mais não é do que um grupo de pessoas, das mais diversas áreas - e que, em muitos casos, nem sequer conheço pessoalmente -, que tem a seu cargo a tarefa de ler as obras que vou produzindo, ainda em bruto, e, depois, oferecerem-me as suas indicações – genéricas e também mais específicas. Isso é, efectivamente, decisivo para mim.

Dentro desse “Conselho” pode encontrar-se críticos literários, escritores e pessoas da área; mas também pode encontrar-se pessoas que em nada estão ligadas, profissionalmente, à escrita ou à arte, mas que podem, por serem leitores dedicados, ser de uma utilidade enorme para mim e para determinados pormenores – técnicos, temáticos e estilísticos.


s.m. Qual é/ foi o seu percurso académico? O que lhe ocupa a maior parte do tempo?

P.F. Depois de terminar o ensino secundário, estudei, em Lisboa, durante quatro anos, Linguística. Foi um curso extremamente útil, ensinando-me bastante sobre o funcionamento da língua e oferecendo-me, assim, uma base de sustentação sólida para o que haveria de ser – e então já o era, também – o meu trabalho.


s.m. Quando começou a escrever?

P.F. A língua portuguesa é – e sempre foi – o meu instrumento de trabalho, e, ao mesmo tempo, a minha paixão. Escrevo, profissionalmente, desde os dezassete anos, quando me iniciei – e logo como chefe de redacção. Desde então, nunca mais parei de estar ligado à produção escrita. Mas já antes dessa idade escrevinhava umas coisas – coisas de adolescente, que, orgulhoso, mostrava à família que, como é natural, dizia que eu iria ser o próximo Fernando Pessoa.

Na verdade, tenho a firme consciência de que só o treino fez com que pudesse estar a um nível que considero aceitável. E, para isso, foi fundamental, mesmo, o meu percurso profissional, que fez com que escrevesse desde livros sobre automóveis até biografias, passando por crónicas desportivas e de humor, não esquecendo os textos publicitários, o guionismo, etc. Enfim, todas estas formas de escrita, apesar de aparentemente desconexas entre si, foram – e são – pilares de trabalho que me forneceram pistas e moldes utilíssimos para conseguir produzir aquela que, para mim, é a arte derradeira, a arte que tudo pode aglutinar dentro de si: o romance.


s.m. Além dos livros Mata-me e o Evangelho da Alucinação sei que já publicou outros e/ ou publica, actualmente, noutros suportes. Poderá revelar aos nossos leitores quais?

P.F. Já publiquei, para além dos dois títulos que refere, mais duas obras – “Já Alguma Vez Usaste o Sexo sem Necessitares de Usar o Corpo” e, mais recentemente, “Os Dias na Noite”. Para além disso, escrevo, como referi na resposta anterior, em variados suportes. Na vertente literária propriamente dita, escrevo para publicações regionais e nacionais pequenas crónicas de ficção – que muitas das vezes se revestem de um cariz filosófico –, ao mesmo tempo em que colaboro, também, com a revista de micronarrativas “Minguante” e com algumas revistas e sites na área dos textos de humor – uma área que também me tem vindo a fascinar bastante.

Continuo, ainda, a dedicar-me ao guionismo – está para breve a estreia de uma curta-metragem – e à escrita jornalística e publicitária (o copywriting, que, confesso, me dá um prazer enorme).

A internet, por seu turno, está também bem presente na minha produção. Para além de alimentar os meus sites pessoais, vou colaborando com alguns outros – não sei dizer não a um convite e as coisas têm-se acumulando – e até tenho um site, bem conhecido na rede, em que assino sob pseudónimo. E tem sido extremamente profícuo escrever sem que saibam quem sou – sem que haja uma espécie de pré-leitura (derivada do conhecimento do autor). O feedback, assim, é mais puro – mais imaculado.


s.m. Actualmente a Internet é uma importante ferramenta na divulgação de todo o tipo de arte e o Pedro tem vários sítios online, um pessoal onde os seus leitores podem acompanhar a sua evolução e reconhecimento público e outros de divulgação de projectos e de inéditos. O que pensa deste mundo? A criação destes suportes foi posterior ou anterior à publicação dos seus livros?

P.F. É um mundo fascinante mas que pode, como todos os mundos – como o mundo em sentido lato –, ter, dentro de si, potencialidades eventualmente perversas. O importante é saber usá-lo e não deixar que seja ele a usar-nos. É isso que procuro fazer: colocá-lo ao meu dispor e não deixar que seja ele a ter-me ali, sempre, às suas ordens.

Os suportes que refere são, todos, posteriores ao lançamento da primeira obra de ficção, e surgiram, em primeira análise, como resposta a esse desejo – meu e dos leitores – de criação de uma ponte entre quem escreve e quem lê. E penso que foi uma decisão acertada. A prova disso é que todos os locais – entretanto fui criando mais – estão vivos, são visitados e, mais importante do que isso, bem visitados.

s.m. Os seus livros são Ficção, o primeiro recebeu uma recensão bastante positiva por parte do “Expresso” e o segundo é considerado uma revolução literária. Como se sente perante este sucesso? Como foi a transição?

P.F. Terei de acrescentar, a essa questão, a recepção aos dois últimos que, sobretudo em relação a “Os Dias na Noite”, tem sido ainda melhor. Tive o prazer de ler, em jornais nacionais, pessoas que muito respeito a defenderem que eu poderia ser um dos grandes escritores deste país e que era, desde já, um grande escritor. É evidente que isso me envaidece bastante e que funciona, sobretudo, como um factor de motivação para não parar – não que eu, caso isto não acontecesse, fosse parar –, para seguir o meu percurso.

No que diz respeito à transição entre livros, não se poderá, sequer, falar nela. As obras que vou publicando estão, regra-geral, colocadas em pousio; isto é: já foram escritas há algum tempo e esperam, apenas, a hora de saírem da sombra e encontrarem o sol das livrarias. Tenho tentado, desde que iniciei a publicação das minhas obras ficcionais, manter uma distância, entre livros, de cerca de meio ano. Mas, feliz ou infelizmente, o meu ritmo de produção é superior ao meu ritmo de publicação, o que faz com que as obras se acumulem aqui em casa.


s.m. Qual foi a sensação de ver o seu primeiro livro publicado? Trouxe mudanças?

P.F. Foi uma sensação de justiça. E quando falo em justiça não falo em mérito qualitativo – que é sempre, para todos, altamente subjectivo; falo, isso sim, em mérito quantitativo – se assim lhe poderemos chamar. Quando lancei o primeiro livro tinha já escrito milhares de páginas e alguns romances. Foram, todos, treinos para a mão. E, nesse sentido, ter finalmente algo publicado foi a justiça de compensar todo esse labor incessante.


s.m. Conte-nos que tal é a experiência de ser um autor reconhecido no mercado livreiro do nosso país.

P.F. Não sou, de todo, um autor reconhecido no mercado livreiro. Isso é que irónico naquilo que apelida de mercado livreiro: os leitores conhecem-me mas o mercado não. Ou então sou eu que não conheço o mercado e estou a confundi-lo com outra coisa qualquer. Mas a opinião que tenho dele – do mercado – é a de que não é boa pessoa. Ou então, se calhar, é a de que ele nem sequer é uma pessoa.

s.m. Como surgiram os títulos Mata-me e Evangelho da Alucinação?

P.F. Os títulos são, para mim, uma das áreas mais fascinante de criação – ou não fosse eu, também, copywriter. Nos casos que refere, a escolha foi diferente: enquanto que em “Mata-me” se tratou, somente, de escolher uma das palavras que mais era repetida ao longo da obra; no caso de “O Evangelho” foi mais o encontrar de uma definição, genérica, do que na obra se poderia encontrar.


s.m. Fale-nos um pouco de cada uma das suas obras.

P.F. “Mata-me” é uma novela curta, dolorosa, cruel até. Viaja entre dois planos narrativos – e temporais – e está escrita numa prosa rendilhada, trabalhada, no limiar da prosa poética.

“O Evangelho da Alucinação” é um microdicionário, um género nunca visto até então. Está dividido por entradas lexicais, como um dicionário, e vai avançando de forma alfabética. Termina, depois, com um pequeno conto de ligação com o dicionário. É uma obra na fronteira do filosófico.

“Já Alguma Vez Usaste o Sexo sem Necessitares de Usar o Corpo” é uma junção de duas artes: o desenho, com trabalhos do Rui Laranjeiro (um artista de grande talento) e textos da minha autoria. É, este sim, um livro de aforismos filosóficos completamente assumidos enquanto tal.

“Os Dias na Noite” é um romance, escrito em três planos narrativos, muito movimentado – está sempre qualquer coisa a acontecer – mas que pode, também, ser alvo de uma leitura mais profunda. Costumo dizer que pode ser uma droga leve ou uma droga dura – dependendo do leitor que o encarar.


s.m. Dada a sua experiência como escritor, jornalista, linguista e coordenador da “Fábrica de Escrita” posso perguntar o que considera mais complexo - escrever poesia ou prosa?

P.F. São provas diferentes. Uma – a prosa – é uma prova de fundo, uma maratona. Exige capacidade de resistência e uma força de vontade inabalável. A outra – a poesia – é uma prova de velocidade, em que tudo se resolve em menos tempo e em que o estado de espírito do momento pode, apesar de a entrega e força de vontade serem também decisivas, fazer a diferença.

Pessoalmente não tenho preferências: escrevo. E é tudo.


s.m. Teve formação académica em Escrita Criativa? O que pensa desta disciplina?

P.F. Frequentei, no meu tempo universitário, diversos ateliers de Escrita Criativa. O que posso revelar é que me foram extremamente úteis e me permitiram escrever ainda mais. Penso que é isso que se deve esperar deles: que nos obriguem, ou motivem, ainda a escrever mais e mais, – obviamente com a aprendizagem, aqui e ali, de algumas noções ou dicas interessantes.

O importante, neste ponto, é fazer as pessoas entenderem que os ateliers de Escrita Criativa não vão ensinar ninguém a escrever; vão ser, isso sim, mais uma fonte de treino. Apenas isso. E, nesse sentido, são extremamente úteis – para principiantes e, também, pela partilha de conhecimentos entre os participantes, para consagrados.


s.m. Sei que iniciou um programa de Criação Literária denominado “Fábrica de Escrita” – poderá explicar aos nossos leitores do que se trata?

P.F. A “Fábrica de Escrita” é um projecto – já com mais de um ano de existência – em que se procura trabalhar sobre todas as áreas da escrita. Temos escolas de escritores – uma de jovens e outra de adultos – e vamos, um pouco por todo o país, realizando ateliers de escrita. Já estivemos em Aveiro, Porto, Amarante, Guimarães, etc. Vamos estar, ainda este ano, também nos Açores.

Já orientei mais de mil horas de sessões de escrita criativa e é algo que me dá um grande gozo. É fantástico observar a evolução que, com o correr do tempo, os operários da escrita, como lhes chamo, vão sofrendo. É mágico.

Mas a “Fábrica de Escrita” não trabalha, apenas, na organização de ateliers de escrita. Produzimos, também, textos para os mais diversos formatos: publicidade, guionismo, jornalismo, etc.

É, no fundo, aquilo que a sua denominação indica: uma fábrica de escrita.


s.m. Neste seu projecto podemos encontrar alunos das mais variadas idades. Como é trabalhar com um público tão diversificado? Qual é o feedback?

P.F. Como referia na resposta anterior, é mágico ver a evolução, em todos os operários – ou quase – de dia para dia. Recebemos pessoas das mais diversas áreas de formação e das mais diversas idades e é fascinante perceber o crescimento que vão tendo de sessão para sessão. É um trabalho altamente enriquecedor.


s.m. Em termos literários, acredita no termo "Inspiração", no termo "Transpiração" ou na sua simbiose?

P.F. A inspiração existe, de facto; é o momento que antecede a expiração. É só nessa inspiração que acredito. A outra é um mito.

Tudo é trabalho: e eu poderei ser a prova provada disso mesmo. Quando visito os meus escritos do tempo em que acreditava na inspiração e me deixava estar, quieto e introspectivo, à espera das ideias – à espera da inspiração -, chego a envergonhar-me daquilo que leio. Se tivesse continuado com essa perspectiva – romântica e irreal –, hoje não seria capaz de escrever nada que pudesse ser, no mínimo, fraco. Era péssimo. Mas – e essa é uma prova inexorável daquilo que afirmo –, mesmo sendo péssimo, consegui atingir um nível que considero, já, publicável. Logo: não acredito no dom; ou melhor: acredito no dom de ter força para trabalhar. Costumo dizer que só quando dói é que a literatura está a ser, realmente, boa.


s.m. Sente necessidade de organizar o seu tempo para escrever?

P.F. A minha vida é escrever. Assim sendo, toda a minha agenda é organizada em função da escrita. O que faço é segmentar os tipos de escrita: humor, ficção, biografias, etc.


s.m. Como caracteriza o seu processo de escrita?

P.F. Intensivo. Obsessivo. Escrevo, em média, oito horas por dia.


s.m. Os seus livros foram todos editados pela Corpos Editores? Como foi o processo?

P.F. O último foi editado pela INDIEbooks. No caso da Corpos foi um processo simples: enviei os textos, gostaram e avançámos.


s.m. O que pensa das edições de autor?

P.F. Acredito que as edições de autor são um refúgio que pode, e deve, ser melhorado e melhor acolhido no mercado. Há grandes obras publicadas em edição de autor. E haverá, tenho a certeza, muitas por publicar.


s.m. Qual é a sua opinião em relação ao mundo editorial?

P.F. Maquiavélico. Canibal. Come, sem misericórdia, quem não tiver uma carapaça de aço.


s.m. Acha que o público, em geral, é mais sensível à poesia ou ao romance? E qual será a razão?

P.F. O romance é inequivocamente mais vendável. Tem movimento, tem acção, tem enredo – tem, no fundo, a vida mais vida; mais palpável. Entendo perfeitamente que assim seja.


s.m. Que autores lê frequentemente? E que autores aconselha aos seus alunos da “Fábrica de Escrita”?

P.F. Sou adepto das drogas pesadas. Mas costumo dizer que mais vale consumir das leves que nenhuma. Em relação a nomes, gosto de fragmentos, apenas, de muitos autores: Camus, Lobo Antunes, Fiódor Dostoiévski, Marguerite Duras, Gonçalo M. Tavares, Haruki Murakami, entre muitos outros. E são esses mesmo que procuro recomendar aos operários da fábrica.


s.m. Qual foi, até hoje, o(s) livro(s) e/ ou autor(es) que mais o marcaram? Porquê?

P.F. Não houve um autor ou um livro, em específico, que me tivessem marcado. Sou um leitor analítico e, nesse sentido, delicio-me com pedaços, com fragmentos de obras. Fragmentos de verdadeira magia – etéreos mesmo. E encontrei momentos desses em obras de todos os autores que referi na questão anterior.


s.m. O que nos reserva para um futuro próximo, em termos de criação literária?

P.F. Está em agenda o lançamento de mais uma obra de ficção até ao final do ano. Estou, ainda, em processo de selecção de entre as muitas que tenho em pousio.

Por outro lado, estará, em muito breve, no mercado uma colecção de biografias de grandes nomes da história mundial, que também foi – e ainda está a ser – redigida por mim.

Vai ser filmada, também em breve, uma curta-metragem da minha autoria.

Há, ainda, outros projectos; mas estão em fase embrionária e seria demasiado precoce expô-los neste momento.


s.m. Pedro, que conselho daria a quem sonha melhorar o seu processo de escrita e, por fim, publicar as suas palavras?

P.F. Nunca parar; nunca ceder à tentação de um programa de televisão ali ao lado quando se tem tempo – e vontade – para escrever. Alguém, um dia, terá dito que é necessário, para se ser, mesmo, escritor, optar entre viver e escrever o viver. É essa a opção que têm de tomar. Eu já tomei a minha.

Em nome do Cultura agradeço a disponibilidade, a extrema simpatia e vejo-me forçada a referir, neste espaço, a elevada modéstia que encontrei no seu carácter. Por tudo isto parabéns e muito sucesso. Estaremos aqui para o ler.