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domingo, março 22, 2009

Eis o contributo de José Carlos Adão [poeta e leitor do IC] para o Dia da Poesia:

SE A POESIA FOSSE O VENTO NORTE


Se o vento Norte fosse um rio...

Se o rio tivesse asas e voasse…

e me contasse, ao ouvido, suspirasse...

notícias de todos os cantos do mundo...

Pudesse dizer onde as águas são...

Onde as águas navegam no espelho do fundo.

Soubesse dizer onde...

Onde há um rio que me conta ao ouvido toda a poesia

No mundo.

Que a leva do canto escondido

ao espelho do fundo

e,

nos suspiros do regresso...

trá-la até mim que,

se a ouvisse... se a contasse...

não mais esta minha voz cansada

seria um ruído no suspirar do vento,

uma pedra no rio que não pára…

gotas lúcidas do Universo!

José Carlos Adão

21/03/2009

domingo, julho 29, 2007

Sozinho

Sento-me neste sofá já rasgado do tempo, repleto de marcas que formam encruzilhadas.

Deito-me no sofa, esperando o conforto do barulho que será emanado do ecrã...
Está vazio, nem um movimento...

Nem uma pálpebra se move neste imenso espaço,
Num movimento isolado, distraído do que me rodeia,
Repito-me e olho pela janela, de vidros baços e acompanhados de um frágil horizonte.

Essas linhas marcam a minha viagem.

São frias, curvas, interceptadas por um corte aqui e ali,
Deixam que as árvores as tornem tão inexpectáveis.
Que não me sinta vazio...

Talvez hoje não esteja tão sozinho...


Pietermaritburg
29/07/07

Reflexo

Acordo...
Acordo e olho a cortina escura que deixa o Sol entrar...

Penso que será mais um dia e que este será melhor.
O espaço que há entre nós não será assim tão grande que me impeça de te olhar.
Os lençois frios da noite, a tua cara já fria deste inverno...

Mais um suspiro e junta-se ao teu, ao que transpiras em cada poro.
Fecho os olhos, pensando que será uma boa altura para o fazer, e de novo acordo.

Já não te sinto ao meu lado,
Sei que não estás ao meu lado, sei que não exististe...

Sei que o teu rosto é a minha memória e a minha memória é o teu rosto.
E entre nós não há mais nada além de um leve reflexo do frio da noite.

O Sol não nasceu ainda...

Pietermaritzburg
29-07-07

terça-feira, junho 05, 2007

No escuro do mundo, um rio morno rega a carne viçosa, ainda pulsante... Para além da janela cá em cima: Wie heißen Sie?, What’s your name?, ¿Como te llamas? À sombra de coqueirais invisíveis, a lágrima tropical molha o sonho pequeno. Um dia tudo acaba e é quase para já. É curta a fome. Um dia, criança, parecia tudo eterno. Sorry, I don’t speak English very well. But, I try. O rio é interno, companheira, uma febre estranha, como já disseram tantos, não quer deixar a carne em paz. Sonha-se tanto, mas qual será a medida das suas realizações? Para além desse pátio silencioso, os quartos guardam muitos sonhos dentro de carnes vivas. Há um plano imenso constituído de pontos discretos e o que se tentaria realizar era uni-los num continum suave. Mr. Lafeber, your room is the number thirteen. But, can you help me? Eu não sei para onde é o meu quarto. Eu trabalho aqui e o mormaço dessa terra, por vezes, lembra o da minha. Não, poeta, o mormaço está aí dentro. O meu verbo é sujo. Ele sofre vibrações inadiáveis, uma corda intangível que vibra pela matéria que vejo, sinto e choro. Gostaria de abraçar, agora, quem gosta de mim. Hello, Mr. Pacik, I’m physicist, too. Do you have a work for me, in America or Germany? Peço-lhe imensas desculpas, enganei-me no vosso nome: ¿Como te llamas? Será Mr. Richards? Rapaz, não incomode os hóspedes! Vá para a sua prisão e deixe-os em paz. Houve um dia verde em que Sofia e Inês apareceram falantes e quase choraram quando foram embora, porque as fibras dos desejos quase romperam a palavra. Ou seria o inverso? Há que se tentar reconstruir o mundo, constantemente. Deixe estar, deixe estar... Quem janta hoje? Qual quarto? O que come? Eu gostaria da sugestão da chef: palavras frescas e puras com molho de verdade. Ich habe eine uncle in Deutschland. Where is he from? Su nombre es Ingo. Él es de Götinger. Eu já não sei o que quero… Internet é fogo... O rio, às vezes, borbulha e não é fácil isso tudo. Ser um ponto na dança involuntária dessa estrutura ondular. Há uma dinâmica que rege todos os nossos passos. Vamos ler mais e acumular verbo num branco incandescente. Me gustarÍa de haCer una resErva en nombre de la señora Mosqueira. Seria uma moça ensolarada? Que lindo... Eu captei o ritmo, mas falta-me vocabulário para agarrar as atenções. A senhora pode me ajudar? Para já, coloque em primeiro lugar o seu sustento, mesmo que você deteste fazê-lo. Onde estará Mr. Smith? Parecia que ele teria aquela oportunidade para mim. Mas na verdade eu, um dia, queria costurar uma colcha de palavras com todos os meus amigos. Amanhã mudo de ideia. É um prazer incomensurável encontrar uma poetirmã. Não exageres, não exageres. Vá, não há tempo para lágrimas, não há tempo para sorrisos. Vamos, menino, deixe de bobagem, isso é coisa de maricas. Agora, nem aqueles colegas frios estão. Nem trabalho, nem frio, nem calor. Não há nem hóspedes na casa. Saíram todos para jantar. O que há agora? Haverá aqueles sonhos ainda?...

quarta-feira, maio 23, 2007

age...

a juventude perdida que se senta naqueles bancos de jardim…
os versos de poesia ritmada que ficaram por declamar
os olhares que, só eles confessam, a nostalgia da janela abriu
a mesma que tinha o mundo e o perdeu.

os versos que diziam tudo mas já não se entende o seu sentido,
os olhares cuja força se esvaiu num refluxo insípido de nada e quase tudo.
a juventude perdida que não se reconhece nos espelhos do Sol.



Pietermaritzburg

23-05-07

Um dia, de madrugada...

um dia partirei de madrugada,
enquanto o sol dormir,
libertar-me-ei do pó do nada
com que o tempo se encarregou de me encobrir.
das cores funestas que se erguiam ao longo da nebulosa…
partirei para o sitio que me espera,
além do deserto,
das areias infinitas e inúmeras que me tapam a vista.
um dia partirei de madrugada antes que acorde o nevoeiro
antes que o sussurro dos primeiros sons te acordem…
partirei só com o calor da noite,
através dos caminhos silenciosos, caminharei
e no fim, numa qualquer madrugada
regressarei sem que dês pela minha ausência

Pietermaritzburg
22-05-07

sábado, dezembro 02, 2006

Abraço

Uma vez mais contrario
A sanidade do dia
Algo que consagrar devia

A cabeça grita-me ao ouvido dos olhos
Pede-me que cesse
Que providencie a certeza de mais uma hora
…eu sorrio, como de costume
Não caçoo nem desrespeito gratuitamente
Apenas sorrio a injustiça de uma lógica imposta
Alguém devia sussurrar-me
- Tem juízo rapaz
Na tentativa de alterar qualquer sentido próprio
Num tom encantado, que me pudesse realmente convencer
Talvez… a promessa de um porto de abrigo
Me fizesse apetecer
Mas…
Desde quando é que ainda faz sentido
Esperar algo melhor ou… neste caso, maior?
Ainda ninguém terá reparado
Que me abraço sempre que escrevo
E que escrevo porque a cantar ninguém me alcançaria
Ah… se soubessem
Que me despeço sempre que me abraço
Se sentissem…
As asas que tenho
No homem que já fui

Pouco, é certo
Nada, é quase garantido
E eu pareço destemido
Sou assim…
Este arcano que se avulta
E o meu mundo tem um fim

terça-feira, agosto 01, 2006

entre beijos

... suspiras bem junto ao meu pescoço, o calor do bar acompanhou-nos até aqui, até esta porta semiaberta, até este degrau, montanha que conquistaste para partilharmos a luz desta lua mansa e parda, que se derrama lentamente dos olhos para os lábios...

... a carpete da sala abraça-nos o corpo quando o sofá nos cospe para o mundo, rebolando, bato de costas e os reflexos fazem-me rodar contigo nos braços, gaiola de carne protectora que te faço por instantes e instintos, pequeno pássaro de luz que és, guardada aqui nos meus braços...

... olhos nos olhos, corpo no corpo, o meu braço esquerdo sustém todo o meu peso, amanhã vai doer mas agora sustém-me, sustém o mundo, só para que a minha mão se passeie pelo canto do teu sorrir, só para que ela te afaste os cabelos pegados de suor da tua cara brilhante...

... o teu corpo sobe e choca de mansinho no meu a cada respiração que tens, as tuas pernas estão enleadas nas minhas, és uma trepadeira viva, a minha mão direita posou na curva da tua anca, seguro-te como se fosses uma viola, a tua voz murmura como a canção que o vento toca nas cordas...

... está calor demais para me afastar de ti, dormes pendurada no meu braço, a boca entreaberta faz-me querer beber mais, está calor, tenho sede, e a tua pele queima como o vento que me lambe a pele de dia, mas não me mexo, só a mão se mexe, quero beber dos teus olhos a luz que a lua oferece pela janela, afasto as tuas madeixas, vejo a fonte que nasce nos teus lábios, bebo uma última vez, e derramo-me nos sonhos escuros...

segunda-feira, julho 17, 2006

Carne

O teu corpo brilha na noite, suave deusa de metal bronzeado, e as pingas de luz dos candeeiros reflectem o suor que se demora pelas curvas do teu corpo, pérolas perdidas que te abandonam.

O ar dentro e fora do quarto está apertado pelo calor, agarra o peito, agarra o pescoço e aperta, sufoca, é um ar morto que nos parece querer matar também, deve querer companhia.

As tuas mãos fervem no meu peito, como é possível estares mais quente que o ar, mais quente que eu, tens fogo nos olhos, esse teu fogo negro, emoldurado por uma chuva de cabelos dourados, pegados, suados.

Mordes-me o ombro quando me apertas o peito, parábola de vida és, misturas o bem com o mal, a dor e o prazer, aqui, neste quarto pintado de noite escura onde somos apenas carne, nós os dois, o mesmo suor, o mesmo ser, a mesma carne.

terça-feira, julho 11, 2006

e tu num sol poente

o sol vermelho do poente reflecte-se
transparente e irreal
nas tuas asas de fada perdida
espalhando a água que trazes
pelas curvas da tua pele
pela tua boca viva
pintada de ouro

bebo as gotas de água
vermelhas da luz poente
que descem do teu cabelo
até à tua cara
até ao teu pescoço
até à tua boca viva
pintada de ouro

pousas a mão no meu peito
fada perdida na planície
que pintaste de ouro
como os teus lábios
como os teus cabelos
mas és frescura e trazes a água
apagas o fogo em que ardo
com o teu corpo ondulado
pintado de ouro

terça-feira, maio 23, 2006

viagem

O meu pensamento perde-se enquanto olho através do reflexo irreal da janela do autocarro.
Na noite que cai quase que me vejo a mim, num quase espelho do qual é tal fácil escapar como ao cair da noite, tão fácil quanto fugir da lua que nasce certamente detrás destas nuvens.
Não penso realmente, não existo realmente, o meu ser dilui-se pelas bermas da estrada, pelo contorno a carvão gelado que se começa a desenhar na planície, já se escapam pormenores desta fotografia viva, mas que importa, se não estou realmente aqui, apenas estou distraído olhando as margens.
Estou tão transparente quanto o vento, neste momento perdido, nada ressoa no interior do meu ser senão o eco tremido do motor, e o vago sabor da música que escorre pelo ar como alcatrão viscoso e se entranha pelos poros da pele.
Mexes-te levemente no meu ombro, tens a minha mão escondida nas tuas desde que nos sentámos, quando adormeceste no meu ombro a paisagem pintava de luz os teus olhos, essa luz escorria como água fresca pela tua cara, pelo teu sorriso vago, pelo teu peito encostado a mim.
O teu peito respira ainda calmamente, suspira vagamente sobressaltado apenas no momento em que acordas, e olhas o mundo que escurece, devolves a luz que guardaste nos teus olhos, que fechaste em ti no momento em que adormeceste, voltas a aparecer no reflexo do vidro, voltas a mexer-te.
Sorrio-te apesar do meu ombro dormente, da dor no meu braço, das horas que permaneci imóvel.
Sorrio-te porque é a única coisa que sei fazer, quando amanheces assim, mesmo num começo de noite, abraçaste-me e apertas-me a alma, já se vêm as luzes da chegada, a viagem canta já o seu fim.
Mas só a luz que escorre de ti, lentamente, gota a preciosa gota, permanece no ar abafado. E, de repente, eu já sou eu outra vez, já existo, aqui, nos teus braços.

quarta-feira, maio 10, 2006

Uma criança

São quatro e meia da manhã, e já devia estar deitado há muitas horas atrás.
Mas não consigo dormir, não consigo mesmo, nem vale a pena tentar, as lágrimas escorrem-me pela cara, o lábio de baixo quase sangra de tanto o morder, o meu coração morreu há uns momentos atrás.
Acabei de ver um filme, aliás, uma cena de um filme, que sorte a minha, apanho sempre a mesma cena do filme, começo a achar que é uma mensagem para mim, atirada ao mar por outra parte de mim que me quer bem ferido e cru por dentro. O filme é "A Lista de Schindler", e a cena é a do massacre dos judeus no gueto de Varsóvia, aquela cena em que no meio das imensidões cruelmente cinzentas do filme se vê uma pequena menina perdida, com um casaco vermelho, um capuchinho perdido no meio dos lobos, uma pincelada de cor, de vida, no meio da morte que a rodeia.
Lembro-me de quando vi o filme no cinema, a revolta volta, é revolta pura o que sinto, não por motivos religiosos, não acredito nem no Bem nem em nenhuma religião em especial, há muito que perdi a pouca fé que ainda se me agarrava aos ossos. Nem se quer é a morte, essa não me afecta nem um pouco, conheço-a bem, chamo-a por vários nomes, nomes de amigos, nomes de família, nomes que não os meus sonhos não me deixam esquecer.
Para dizer a verdade, é a criança, a menina de vermelho.
Algo em mim se parte quando vejo aquela criança ali, aquela criança que sei que morrerá, morrerá como tantas, mas é aquela que dá corpo aos meus medos, que dá nome aos meus desgostos.
Todos os músculos do meu corpo querem agarrá-la, levá-la dali, protegê-la desta morte que a rodeia, a esta menina que não existiu nunca realmente, mas que existe para mim, que existe para os meus olhos. E as lágrimas caem dos meus olhos porque estou sentado, num confortável sofá, mais de cinquenta anos depois, a ver uma menina que nunca existiu caminhar inocentemente para a morte.
E, apesar disso, quero salvá-la. Quero mesmo. E o meu desgosto é não conseguir, não conseguir que aquela criança se salve, que nenhuma delas se salve, simplesmente porque ela é, como tantas outras, uma pincelada de cor de sangue vivo no nosso mundo de purgatórios cinzentos e mortos.
E nunca os conseguimos salvar.
Que vontade de matar quem a mata, de esmagar quem vai esbater o seu sorriso, por motivos que nem eu nem ela percebemos bem.
E mesmo assim não a consigo salvar.
Nem mesmo dentro de mim.

quarta-feira, maio 03, 2006

Renascer

Três horas de dor pura, não adulterada, tinham já passado. Não que fosse uma dor especialmente forte, tinha já passado por dores bem piores, daquelas dores que nos fazem querer enrolar no chão e chorar, que nos fazem querer arrancar a pele dos braços com os dentes.
Até esta dor não era desconhecida, já tinha passado por mim antes, as sucessivas picadas do tinteiro na pele nua, rasgando e criando ao mesmo tudo, deve ser esta a dor da criação, a pele abandona o seu estado natural e funde-se com a tinta, cria um conceito, cria um novo ser através da dor.
Mas nunca durante três longas horas. Tento nem pensar nisso, tento que a minha mente voe daqui e me faça esquecer que estou imóvel há três longas eternidades.
Falho redondamente, cada risco do tinteiro puxa-me violentamente de volta para a realidade, cada músculo das minhas pernas clama vingança, a pele massacrada do meu braço vai cair a qualquer momento.
Torna-se uma luta contra o meu corpo, fico reduzido ao mínimo que sou, é só a minha vontade que me impede de cair na súbita escuridão, só ela me impede de desistir. Quando aqui entrei ela, a minha vontade, já estava no seu limite, gasta por cinco anos de purgatório, batida e de lágrimas nos olhos por um ano de inferno. Não sei sequer como ela me aguenta de pé quando finalmente acaba.
Quando saio é já noite, um vento frio faz-me tremer tudo menos o braço, esse está dormente, a Fénix renascida dorme já encostada a mim, sou já outro e ninguém vê, ninguém se apercebe da mudança.
Caminho devagar pelas ruas mal iluminadas, passam por várias sombras que evitam ser vistas, mas não me importo nada, estou finalmente vazio, finalmente limpo, três horas de dor limparam todas as outras dores, apagaram todo o mundo passado para sempre, estou limpo e leve e livre, sou eu a negra Fénix que voa anichada no meu braço.
E atrás de mim, só as cinzas restam.
Só as cinzas.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

S. Valentim

Fui um abraço quando precisaste,
fui um corpo onde te afogaste,
fui um coração a bater compassado
com o teu sonho magoado.

Envolvi-te nos meus abraços
e nem o mundo, nem a luz,
nem as recordações do céu
passaram pelos teus olhos.

Fui o teu mundo quando pediste,
fui o chão dos teus passos,
parti o meu trono e a minha coroa
para te fazer sorrir de novo.

Mas nunca vou ser para ti
a salvação colorida e doce
que a tua voz é para mim
todos os dias deste mundo.

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Memória

Hoje, ainda a tarde não tinha caído completamente, lembrei-me de ti. Não tinhas acordado ainda, pensei. Visualizei o teu rosto, tão suave como a pena de um falcão que corre por entre as muralhas de uma prisão. Estava atrás de ti e os teus longos cabelos negros ondulados pareciam não ter fim. Pareciam, achei, as cordas que me poderiam ajudar a chegar mais perto de ti... Estavas distraída a olhar o horizonte. Também, pensei eu, se tivesse este mar que tu tens, não mais olharia para trás. Mas tu olhaste...olha sempre para trás. Lembra-te que estou aqui.
Pairava, no ar, uma brisa que tocava ambos os rostos. O teu e o meu....o nosso. A imagem que via entristecia-me ainda mais. Tu tentavas escapar-me ainda que imóvel. Tentavas caminhar sobre esse mar calmo que se agitava em ondas revoltas.
Olhaste e viste o meu rosto triste por não ter notícias tuas. Sorri com uma lágrima quando te senti sorri também. O teu longo vestido negro abanava-se agora como quem me chamava. Tentei correr atrás de ti. Continuavas imóvel, ligeiramente curvada para mim, mas não te alcançava. As tuas mãos não eram mãos. As tuas mãos eram raízes que não te libertavam, mas que te davam vida e te alimentavam. E isso fazia-me muito feliz. Gritei para te ouvir, mas o som ecoou dentro de mim e não mais saiu da minha boca. Nessa altura sorriste... sei que não disse nada, mas os teus ouvidos ouviram a minha voz. Nesse momento sorriste e eu amei-te como nunca te tinha amado. Das tuas raízes saíram gotas de água que se sentaram no meu peito e nesse mesmo lugar... No lugar onde estivera o meu coração, nasceu uma flor. Aquela que tu sempre gostaste mais do que todas as outras. Mais do que a mim. Agora éramos o mesmo e assim ficámos, inertes mas eternos.

Exigência

Exijo sentar-me numa cadeira feita de veludo,
Cansada de me sentir sentado.

Exijo sorrir perante o rosto cinzento
de um qualquer sonho anunciado.

Exijo olhar a tua face linda como me recordo
Entre as deambulações da amnésia.

Exijo poder olhar fixamente para os lados,
para o esquerdo e para o direito.

Exijo não mais que tu...

Exijo um conhecimento superficial
da pele enfraquecida pela desidratação...

Exijo o silêncio à minha volta...

na expectativa de um barulho ensurdecedor,
que cale as vozes que ouço agora.